Biorreligião

Religião é um tema difícil e polêmico, mas faz parte de todas as atitudes públicas de uma nação. Na maioria das vezes, é o freio da impulsividade da humanidade e dos indivíduos que têm a religiosidade no seu cotidiano. É um assunto intrigante e diretamente ligado à vida e ao bem-estar de grande parte da população. No meu caso, médico da reprodução humana, o binômio vida-religião, que agora chamo de Biorreligião, é essencial para o entendimento dos casais. A palavra Biorreligião, até este momento, não existe no dicionário brasileiro nem na internet; é uma criação minha; mas pode ser traduzida como a responsabilidade e o respeito dos médicos e embriologistas à religião das pessoas envolvidas nos tratamentos ligados à vida. Pode ser feita uma analogia dela com Bioética (conjunto de problemas levantados pela responsabilidade moral dos médicos e biólogos em suas pesquisas e na aplicação destas) e Biodireito (normas jurídicas reguladoras dos procedimentos a serem utilizados para que a ciência atinja seus objetivos, sem ferir os princípios éticos e os direitos humanos fundamentais, tais como a “dignidade do ser humano” e o “direito à vida”).

Este livro, como outros que já escrevi, é inspirado no dia a dia do atendimento às minhas pacientes que sofrem, junto aos seus maridos, dos problemas de infertilidade. Essa rotina, que me deixa conectado ao conceito de que os seres humanos são dotados de corpo e alma, provoca em mim reflexões permanentes e acabam me inspirando na pesquisa de assuntos que pouco ou mal conheço.

Penso nas minhas pacientes quase o tempo todo, e em como ajudá-las: penso nelas quando estou na clínica, nos hospitais, em casa, no automóvel, nos congressos, nos momentos de lazer, nas minhas corridas de rua, durante as meias maratonas e em outras atividades. Qualquer desvio desse foco é sempre interrompido por rasgos de lembranças das dificuldades que esses casais enfrentam.

Como se não bastassem os problemas de saúde reprodutiva, físicos e funcionais, causadores deste mal, muitos casais ainda enfrentam as dúvidas e interpretações conflitantes de suas religiões: o proibido, o permitido e o interpretativo. Embora esses casais não venham até mim em grande número, a intensidade desses sentimentos é tão grande que me inspiraram nesta iniciativa de estudar as religiões, dentro dos limites cabíveis para um médico. Não sou um teólogo, mas li muito. Consultei várias vezes a Bíblia, teólogos, depoimentos de religiões variadas, li várias vezes o Catecismo e Encíclicas Papais – Carta encíclica HUMANAE VITAE (Papa Paulo VI),Carta encíclica INSTRUÇÃO SOBRE O RESPEITO À VIDA HUMANA NASCENTE E A DIGNIDADE DA PROCRIAÇÃO (Papa João Paulo II) e a Carta encíclica DEUS CARITAS EST (Papa Bento XVI) – e conversei com orientadores de muitas religiões. Por meio de entrevistas, busquei a opinião viva de representantes religiosos, que responderam questões objetivas sobre as principais dúvidas dos tratamentos. Elaborei o roteiro das entrevistas, muitas delas realizadas brilhantemente pela jornalista Camila Fornereto, meu braço direito neste trabalho, que muito colaborou com o resultado final do livro. Afinal, essa tarefa exige disponibilidade de tempo integral, o que é impossível no meu ritmo profissional. Aprendi, cresci muito e tive surpresas positivas e negativas. Ouvi religiosos que sabem muito deste assunto e outros que orientam seus fiéis, mas pouco conhecem sobre o tema.

Aprendi que todas as religiões têm objetivos semelhantes e estão em harmonia entre elas. Podem ter diferenças substanciais do ponto de vista filosófico, mas são iguais quando se trata de ajudar a humanidade. Quando colocamos lado a lado suas crenças fundamentais comuns, descobrimos que as diferenças são superficiais e as semelhanças profundas. Cada uma enfatiza suas regras, mas todas desejam desenvolver os seres humanos da melhor maneira, valorizando qualidades como generosidade, amor, compaixão, altruísmo, perdão e respeito pelo outro, além de princípios como “ama o teu próximo”, “honra o teu pai e a tua mãe”, “fala a verdade”, “é melhor dar do que receber”etc.. O código moral e os dez mandamentos são os mesmos para os católicos e para a Torah, e não há religião que pregue prejudicar o próximo, invejá-lo ou odiá-lo. O menino católico integra-se à comunidade pelo batismo, e o menino judeu pela circuncisão, vindo, depois, a confirmá-la.

Para aqueles que acreditam em algo superior, a fé e a religiosidade podem contribuir para melhorar a própria saúde – física, psicológica e espiritual. Na Reprodução Humana equilibram-se a produção de hormônios, endorfinas e o sistema imunológico.

Tanto nos tratamentos de infertilidade como em qualquer doença, a ciência é fundamental para os melhores resultados, e os avanços tecnológicos nunca devem ser desconsiderados, mas o respeito à espiritualidade fortalece ainda mais o casal na busca de um resultado positivo.

A necessidade de poder gerar filhos é natural do ser humano. A humanidade quer se perpetuar e o instinto da reprodução é inato. Essa verdade vale para os homens e para os animais. Os casais que não conseguem gerar filhos, na maioria das vezes, tornam-se infelizes, inconformados e frustrados. Encontramos demonstrações dessa necessidade em passagens bíblicas, como o nascimento do filho de Sara:

“Sara, mulher de Abrão, não lhe tinha dado filhos; mas, possuindo uma escrava egípcia, chamada Agar, disse a Abrão: Eis que o Senhor me fez estéril; rogo-te que tomes a minha escrava, para ver se ao menos por ela, eu posso ter filhos.” (Gênesis 16:1 e 2)

O histórico bíblico não está limitado a Sara, Abrão e Agar. Há a passagem em que Raquel, não tendo filhos, oferece sua escrava e até mesmo sua irmã, Lia, para coabitar com Jacó, procurando, assim, resolver o problema de infertilidade.

É o que mostram os seguintes versículos do 30º capítulo do livro de Gênesis da Bíblia:

  1. Vendo, pois, Raquel que não dava filhos a Jacó, teve Raquel inveja de sua irmã e disse a Jacó: Dáme filhos, senão morro.
  2. Então, se acendeu a ira de Jacó contra Raquel e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?
  3. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; entra a ela, para que tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela.
  4. Assim, lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó entrou a ela.
  5. E concebeu Bila e deu a Jacó um filho.

Algumas Religiões condenam parte dos tratamentos de Fertilização, mas isso é esperado, pois muitas vezes não sabemos se a busca pela evolução tecnológica nos levará a destinos prejudiciais a nós mesmos ou a nossos familiares. Talvez, algumas exagerem nas proibições, mas nos seguram e impõem reflexões para que possamos planejar para a humanidade um futuro melhor. Não é fácil descobrir em nossas vidas os caminhos dos acertos e dos erros. Mas todos temos o livre arbítrio, que nos torna responsáveis por nossas atitudes. Nos momentos difíceis, quando se apresentam dois caminhos conflitantes, precisamos privilegiar a sabedoria, ter calma e não tomar decisões precipitadas. Se em um primeiro julgamento algo se apresenta maravilhoso, incrível e sedutor, deve-se ponderar, e considerar com profundidade, uma outra opção que pode privilegiar o nosso destino e não somente o presente. “CRIAMOS NOSSO PRÓPRIO DESTINO.”

Dr. Arnaldo Schizzi Cambiaghi

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