Uma revisão narrativa orientada à divulgação científica, com base na literatura indexada na PubMed entre 2021 e 2026
Médico Ginecologista · Especialista em Medicina Reprodutiva · Clínica IPGO — São Paulo.
Dr. Mateus Moreira Santos RosinMédico Ginecologista · Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva e Fertilidade
Nota ao leitor
Este artigo de divulgação foi elaborado para mulheres, familiares e profissionais não especialistas que desejem compreender, em linguagem acessível, o estado atual do conhecimento científico sobre endometriose. Ao longo do texto, evitamos jargão técnico sem prejuízo da fidelidade às evidências. O conteúdo baseia-se em literatura indexada na PubMed publicada entre 2021 e 2026, listada ao final. Sempre que a literatura apresenta associações ainda em investigação ou achados que requerem replicação, indicamos essa condição no próprio texto. O artigo encerra com uma seção de 15 perguntas e respostas em linguagem direta.
Índice
ToggleIntrodução
A endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva, o que corresponde a cerca de 190 milhões de mulheres no mundo. O atraso médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico permanece em torno de sete anos. Estima-se que metade das mulheres com infertilidade investigada em clínicas de reprodução assistida apresente endometriose como fator contribuinte.
Em termos didáticos, a endometriose é a presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Esse tecido instala-se em ovários, trompas, peritônio, intestino, bexiga, diafragma e, mais raramente, em sítios distantes como pulmões e sistema nervoso. Em todos esses locais, ele responde aos hormônios femininos, inflama, sangra internamente e induz a formação de aderências.
Durante décadas, a doença foi tratada como afecção exclusivamente pélvica. A literatura acumulada na última década, no entanto, sustenta uma visão mais ampla: a endometriose comporta-se como uma doença inflamatória crônica com componentes sistêmicos, cujos efeitos se estendem para além do compartimento ginecológico — alcançando, em diferentes graus de evidência, o sistema imunológico, o aparelho cardiovascular, o sistema nervoso central, o intestino, a tireoide e a saúde mental.
Os 6D: a apresentação clínica
Especialistas utilizam uma mnemônica de seis sintomas iniciados pela letra D como bússola diagnóstica: dismenorreia, dispareunia, disúria, disquesia, dor pélvica crônica e dificuldade para engravidar. A ausência de um ou mais destes sintomas não exclui a doença — cerca de 20 a 25% das mulheres com endometriose são oligossintomáticas ou assintomáticas, com diagnóstico frequentemente incidental.
As frequências relatadas para cada um dos 6D derivam predominantemente de coortes cirúrgicas de centros terciários — populações selecionadas pela gravidade do quadro. Em populações gerais com endometriose, as proporções tendem a ser menores. Essa ressalva é importante para evitar que mulheres assintomáticas se sintam indevidamente alarmadas, sem com isso reduzir o valor clínico da bússola dos 6D.
Dismenorreia
Cólica menstrual intensa e progressiva, presente em até 84% das pacientes atendidas em centros especializados. Ao contrário da dismenorreia primária, tende a piorar a cada ciclo e responde mal a anti-inflamatórios convencionais.
Dispareunia
Dor durante a relação sexual, especialmente na penetração profunda. Frequente em pacientes com endometriose profunda com acometimento de ligamentos uterossacrais, fundo vaginal ou septo retovaginal. Tem repercussões emocionais e relacionais que costumam ser subnotificadas em consulta.
Disúria
Dor ou desconforto miccional, frequentemente cíclico. Ocorre quando há acometimento de bexiga ou ureteres. O padrão cíclico é distintivo em relação à infecção urinária comum. Em casos de endometriose ureteral silenciosa, pode haver perda progressiva da função renal sem sintomas urinários evidentes.
Disquesia
Dor à evacuação, em geral cíclica, com piora menstrual. Sinaliza acometimento intestinal, particularmente em reto e cólon sigmoide. Frequentemente confundida com síndrome do intestino irritável, contribuindo para o atraso diagnóstico.
Dor pélvica crônica
Dor pélvica acíclica, persistente por mais de seis meses. Reflete inflamação peritoneal sustentada, aderências e, com frequência, sensibilização do sistema nervoso central, que amplifica de modo desproporcional os estímulos dolorosos.
Dificuldade para engravidar
A infertilidade afeta 30 a 50% das mulheres com endometriose e é, em muitos casos, o sintoma que conduz ao diagnóstico. Os mecanismos envolvidos são múltiplos e detalhados na seção 5 deste artigo.
Por que a endometriose é uma doença com componentes sistêmicos
O mecanismo central que conecta os múltiplos efeitos da endometriose é a inflamação crônica de baixo grau. O sistema imunológico permanece em estado de ativação contínua, liberando citocinas, prostaglandinas e microRNAs que circulam pelo organismo. Ao longo do tempo, essas substâncias podem afetar órgãos e tecidos distantes dos focos primários da doença.
Além do componente inflamatório, descrevem-se alterações epigenéticas, desequilíbrio hormonal sistêmico e disfunção do microbioma intestinal. Vesículas extracelulares atuam como mensageiros celulares, transportando sinais inflamatórios das lesões a órgãos distantes pela circulação sanguínea e linfática.
Tulandi e Alborzi (2024) sintetizam essa perspectiva afirmando que a endometriose representa uma doença inflamatória crônica, multifatorial e sistêmica, com diálogo molecular entre o tecido endometrial ectópico, o sistema imunológico e órgãos periféricos distantes.
Disfunção imunológica
Um sistema imunológico saudável identifica e elimina tecidos anormais ou ectópicos. Na endometriose, esse mecanismo encontra-se profundamente desregulado: as lesões não apenas escapam à vigilância imunológica como, em alguns casos, parecem contar com a proteção ativa do próprio sistema de defesa.
Macrófagos. Tornam-se tolerantes às lesões e passam a secretar substâncias que favorecem seu crescimento.
Células NK (natural killer). Sua atividade está reduzida no líquido peritoneal de mulheres com endometriose, permitindo que as lesões sobrevivam e se expandam.
Células T reguladoras. Aumentadas nos focos de doença, instalam um ambiente de tolerância imunológica que protege o tecido ectópico.
Autoanticorpos. A endometriose estimula a produção de anticorpos contra estruturas do próprio organismo, fenômeno característico de doenças autoimunes. A natureza causal da associação observada com lúpus, artrite reumatoide e tireoidite de Hashimoto permanece em investigação ativa (ver seção 10).
Órgãos e sistemas afetados
A endometriose pode afetar, direta ou indiretamente, múltiplas estruturas do organismo. Os principais sistemas envolvidos, com referências numéricas à literatura listada ao final, são:
Sistema cardiovascular. Alterações no endotélio e correlação observada — embora ainda não estabelecida como causal — com aterosclerose, hipertensão, pré-eclâmpsia e eventos cardiovasculares. Discussão detalhada na seção 6 [10, 11, 12, 15].
Sistema nervoso central. A dor crônica modifica estruturas cerebrais. O eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal apresenta-se desregulado, com fadiga, ansiedade, depressão e disfunção cognitiva [6, 9].
Intestino e microbioma. A disbiose intestinal é frequente e pode contribuir para perpetuação da doença pela reativação do estrogênio circulante. O eixo intestino-cérebro amplifica a dor e os sintomas emocionais [7, 8].
Aparelho respiratório. Lesões torácicas existem, mas são raras. O pneumotórax catamenial está descrito majoritariamente em relatos e pequenas séries de casos — é evento incomum, embora clinicamente relevante quando ocorre [1, 4, 6].
Sistema urinário. A endometriose ureteral pode causar obstrução silenciosa e perda progressiva da função renal, justificando investigação dirigida diante de disúria cíclica [1, 4].
Tireoide. Associação observada com doenças autoimunes tireoidianas. A associação com câncer de tireoide foi descrita em estudos populacionais, com magnitude variável entre fontes (ver seção 7) [13].
Ovários. Endometriomas destroem progressivamente o tecido ovariano saudável e elevam o risco de subtipos específicos de câncer de ovário (endometrioide e células claras) [3, 13, 16].
Sistema musculoesquelético. A inflamação sistêmica contribui para dores musculares difusas, síndrome miofascial e sensibilização central [1, 2, 6].
Endometriose e infertilidade
A infertilidade é uma das consequências mais frequentes e impactantes da endometriose. Estima-se que 30 a 50% das mulheres com a doença enfrentem algum grau de dificuldade para engravidar, e que, entre mulheres em investigação ativa de infertilidade em clínicas de reprodução assistida, 25 a 50% recebam o diagnóstico de endometriose. Esse último percentual reflete uma população selecionada e não a prevalência da doença na população geral.
Reserva folicular
Endometriomas destroem progressivamente o tecido ovariano saudável adjacente e elevam o estresse oxidativo intrafolicular, comprometendo a maturação ovocitária. O hormônio antimulleriano (AMH) apresenta-se consistentemente reduzido em mulheres com endometriomas; em endometriose peritoneal isolada ou profunda sem componente ovariano, a evidência sobre AMH pré-operatório é heterogênea, sem consenso entre estudos.
Trompas de Falópio
Aderências peri-tubárias podem deformar, bloquear ou fixar as trompas. Mesmo na ausência de obstrução completa, a função ciliar encontra-se comprometida pelo ambiente inflamatório peritoneal.
Receptividade endometrial
O endométrio de mulheres com endometriose apresenta alterações moleculares que prejudicam a recepção embrionária — fenômeno descrito como resistência endometrial. A janela de implantação tende a ser estreitada ou deslocada. A adenomiose, frequentemente coexistente, altera a contratilidade uterina e eleva o risco de aborto espontâneo de primeiro trimestre.
Ambiente peritoneal
O líquido peritoneal contém concentrações elevadas de citocinas inflamatórias, radicais livres, macrófagos ativados e prostaglandinas. Esse ambiente é diretamente tóxico para gametas, compromete a fertilização e prejudica o desenvolvimento embrionário inicial.
Eixo reprodutivo
A dor crônica e o estresse associado podem desregular o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, com repercussões na liberação pulsátil de GnRH, nos picos de LH e FSH, e na ovulação. Anovulação, deficiência de fase lútea e irregularidades menstruais são mais frequentes nessa população.
Componente imunológico
Autoanticorpos podem atacar células trofoblásticas, dificultando a implantação e elevando o risco de abortamento. Células NK uterinas apresentam função alterada, contribuindo para um ambiente imunológico hostil à gestação.
Endometriose e saúde cardiovascular
A inflamação crônica da endometriose tem o potencial de afetar progressivamente o endotélio vascular. Estudos populacionais recentes encontraram associação entre endometriose e maior incidência de eventos cardiovasculares ao longo da vida. Meta-análises descrevem aumento relativo de 23% no risco geral de doença cardiovascular, 35% para doença coronariana e 19% para doença cerebrovascular.
Esses números devem ser interpretados como aumentos relativos, e não absolutos. Em mulheres jovens em idade reprodutiva, o risco absoluto anual de evento cardiovascular permanece baixo, mesmo na presença da doença. O acréscimo se acumula ao longo das décadas, o que sustenta a recomendação de vigilância cardiovascular ao longo da vida.
Sobre causalidade. Os estudos disponíveis são, em sua maioria, observacionais — mostram que mulheres com endometriose apresentam mais eventos cardiovasculares, mas não estabelecem a endometriose como causa direta. Um estudo de randomização mendeliana publicado em 2025, desenho específico para investigar causalidade, não encontrou ligação causal genética direta entre endometriose e doenças cardiovasculares. Parte da associação observada pode ser explicada por fatores compartilhados: inflamação sistêmica de base, predisposição genética comum, perfil hormonal e comportamentos de saúde.
Mecanismos plausíveis. Citocinas circulantes podem favorecer o início precoce da aterosclerose; o estresse oxidativo encontra-se elevado em parte das pacientes; alguns estudos descrevem perfil lipídico desfavorável, com LDL mais alto e HDL mais baixo, sem causa identificada; a dor crônica pode alterar a regulação autonômica e o tônus vascular; e a maior incidência de pré-eclâmpsia gestacional é, por si só, marcador reconhecido de risco cardiovascular futuro.
Sobre prevenção farmacológica. Aspirina e estatinas são eficazes na prevenção cardiovascular em populações de risco elevado por outras causas. Até o momento, não há ensaios clínicos randomizados que tenham testado esses medicamentos especificamente em mulheres com endometriose. Um editorial publicado no European Heart Journal Open em 2025 (Marchandot e Morel) defendeu exatamente a realização de estudos dedicados. Por enquanto, a decisão sobre uso dessas medicações segue critérios cardiológicos habituais, individualizada — não há base científica para indicar nem para contraindicar essas drogas apenas pelo diagnóstico de endometriose.
Recomendação prática. Independentemente das incertezas sobre causalidade, há uma orientação estável: mulheres com endometriose se beneficiam de vigilância cardiovascular ao longo da vida — controle de pressão arterial, perfil lipídico, peso, atividade física regular, sono adequado e cessação do tabagismo.
Endometriose e risco oncológico
A literatura observacional descreve aumento do risco relativo para alguns cânceres em mulheres com endometriose. É essencial enquadrar esses dados em termos de risco absoluto: a maioria das mulheres com endometriose não desenvolve câncer. O risco populacional de câncer de ovário ao longo da vida, por exemplo, é de aproximadamente 1,3%; um aumento relativo de 90% transformaria essa probabilidade em cerca de 2,5% — substancialmente maior, mas ainda assim um câncer estatisticamente raro.
Câncer de ovário. Meta-análises descrevem aumento relativo na faixa de 30 a 90%, predominantemente para os subtipos endometrioide e células claras, que se originam diretamente do tecido endometrial transformado pela inflamação crônica.
Câncer de endométrio. Estudo populacional americano de 2024, com base no National Inpatient Sample (Al-Badawi et al.), reportou odds ratio de 3,61. Esse número é significativamente maior do que o descrito em meta-análises anteriores, que tipicamente mostram risco relativo entre 1,2 e 1,4. O achado isolado em base administrativa pode refletir viés de codificação ou de detecção, e exige confirmação por estudos prospectivos antes de ser incorporado como verdade estabelecida.
Câncer de tireoide. Estudos populacionais mostram associação positiva, com magnitude variando entre fontes — geralmente na ordem de 20 a 40% de aumento relativo. O mecanismo proposto envolve disfunção imunológica compartilhada.
Câncer de mama. A relação permanece controversa. Alguns estudos descrevem pequeno aumento de risco; outros, relação inversa. Não há consenso atual.
Microbioma intestinal e endometriose
O microbioma intestinal influencia o sistema imunológico, o metabolismo hormonal, a saúde mental e a percepção da dor. Em mulheres com endometriose, esse ecossistema apresenta-se frequentemente em disbiose. Certas bactérias intestinais produzem beta-glicuronidase, enzima que reativa o estrogênio que seria eliminado — fenômeno mediado pelo chamado estroboloma — e que pode contribuir para elevar os níveis de estrogênio circulante.
O eixo intestino-cérebro, mediado em parte pelo nervo vago, encontra-se disfuncional: amplifica a percepção da dor, contribui para sintomas de ansiedade e depressão, e agrava manifestações como distensão abdominal, alterações do hábito intestinal e náusea. A direção causal entre disbiose e endometriose ainda está em investigação — a disbiose pode ser tanto consequência quanto fator perpetuador da doença.
Saúde mental
As repercussões emocionais da endometriose têm bases neurobiológicas concretas, não sendo redutíveis a reação psicológica à dor. Citocinas inflamatórias interferem em neurotransmissores responsáveis pelo bem-estar, especialmente serotonina e dopamina. O eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal permanece cronicamente desregulado.
Taylor e Polimanti, em estudo publicado no JAMA Network Open em 2023, demonstraram, com base em análise genética de grande escala, associações significativas — e parcialmente compatíveis com relação causal — entre endometriose, transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade. Aproximadamente 65% das mulheres com endometriose relatam impacto emocional significativo. A saúde mental não pode ser tratada como consequência meramente secundária: requer atenção clínica específica e integrada ao plano terapêutico.
Endometriose e doenças autoimunes
A coincidência entre endometriose e doenças autoimunes vai além de associação epidemiológica casual. Pesquisas de randomização mendeliana sugerem direção causal compatível entre endometriose e artrite reumatoide, embora a confirmação definitiva exija replicação adicional.
Lúpus eritematoso sistêmico. Inflamação crônica e autoanticorpos presentes em ambas as condições sugerem possíveis raízes imunológicas comuns.
Artrite reumatoide. Pesquisas genéticas apontam para vias inflamatórias compartilhadas, envolvendo neutrófilos e citocinas como TNF-alfa e IL-6.
Tireoidite de Hashimoto. Condição autoimune da tireoide com prevalência elevada em mulheres com endometriose, especialmente em quadros associados à infertilidade.
Outras associações em investigação. Síndrome de Sjögren e esclerose múltipla foram descritas em estudos exploratórios (notadamente Shigesi 2019 e derivados), mas requerem replicação e estudos prospectivos antes de serem afirmadas com a mesma confiança das associações anteriores.
Tratamento cirúrgico: efeitos sobre desfechos sistêmicos
O tratamento cirúrgico é eficaz e necessário em diversas situações clínicas da endometriose. A pergunta científica relevante, ainda em construção, é em que medida ele modifica os desfechos sistêmicos associados à doença.
Efeitos consistentemente descritos da cirurgia. A excisão laparoscópica das lesões reduz significativamente os escores de dor por até cinco anos, melhora a qualidade de vida, a função sexual e os índices de fertilidade. Lavor e colaboradores publicaram, em 2024, estudo prospectivo brasileiro de braço único que descreveu redução de ansiedade e depressão seis meses após cirurgia para endometriose profunda — desenho sem grupo controle, mas alinhado com observações de outros centros.
Efeitos sistêmicos residuais. A remoção das lesões visíveis não desativa os mecanismos sistêmicos previamente instalados. A inflamação crônica de baixo grau pode persistir; a disfunção endotelial vascular, o desequilíbrio imunológico de base e as alterações do microbioma intestinal não se normalizam automaticamente. Em mulheres com doença de longa data, a sensibilização do sistema nervoso central pode permanecer mesmo após cirurgia tecnicamente bem-sucedida.
Recorrência. Séries históricas descrevem 36 a 50% de necessidade de reoperação em cinco anos, predominantemente em endometriose profunda e quando não houve supressão hormonal pós-operatória. Séries mais atuais, com excisão completa seguida de supressão hormonal adequada — progestagênio contínuo ou DIU com levonorgestrel —, descrevem taxas de recorrência sintomática substancialmente menores.
Implicação clínica. O modelo de cuidado com maior probabilidade de modificar desfechos de longo prazo é multidisciplinar e integra ginecologia, cardiologia, gastroenterologia, endocrinologia, psicologia e nutrição. A cirurgia é elemento fundamental desse modelo, mas não o esgota.
Considerações finais
A endometriose, à luz da literatura recente, é mais bem compreendida como uma doença inflamatória crônica com componentes sistêmicos. Sua expressão clínica abrange dor pélvica, infertilidade e um espectro de manifestações que envolve, em diferentes graus de evidência, o aparelho cardiovascular, o cérebro, o intestino, a tireoide e a saúde mental. A força da evidência varia entre essas associações: algumas estão bem estabelecidas, outras permanecem em construção e exigem confirmação por estudos adicionais.
Quatro implicações práticas emergem dessa síntese. Primeira, o risco cardiovascular relativo descrito na literatura justifica vigilância clínica de longo prazo, independentemente das incertezas remanescentes sobre causalidade direta. Segunda, o desequilíbrio imunológico, a disbiose intestinal e a sensibilização central não se resolvem automaticamente com a remoção das lesões e podem requerer estratégias terapêuticas específicas. Terceira, a vigilância oncológica para cânceres de ovário, endométrio e tireoide é recomendada, com a ressalva de que a maioria das mulheres com endometriose não desenvolverá esses cânceres. Quarta, o modelo de cuidado mais consistente com a evidência atual é multidisciplinar e longitudinal — distinto do modelo tradicional centrado em uma única especialidade.
Perguntas e Respostas: Endometriose: uma doença de todo o corpo
Não é exagero, embora a maneira exata pela qual a doença alcança outros órgãos ainda esteja em investigação. A endometriose provoca inflamação crônica de baixo grau que circula pela corrente sanguínea e pode afetar múltiplos órgãos e sistemas. Revisões publicadas em 2026 no International Journal of Molecular Sciences a classificam como doença inflamatória crônica com componentes sistêmicos. Lesões já foram documentadas em pulmões, diafragma, fígado, sistema nervoso central, umbigo e até nos olhos em casos raros.
O atraso médio de sete anos resulta de múltiplas razões: os sintomas se confundem com cólica menstrual intensa, síndrome do intestino irritável e infecção urinária; ainda persiste a crença equivocada de que cólica forte é normal; e o diagnóstico definitivo de algumas formas requer cirurgia com biópsia. Quanto mais tarde o diagnóstico, mais anos de inflamação crônica acumulada — o que reforça a importância da suspeição clínica precoce.
Estudos populacionais mostram aumento relativo de 19 a 35% no risco de doença coronariana e cerebrovascular. É essencial interpretar esses números como aumento relativo, não absoluto: em mulheres jovens, o risco absoluto anual continua baixo. Há ainda debate científico sobre causalidade — um estudo de randomização mendeliana de 2025 não encontrou ligação causal genética direta, sugerindo que parte da associação pode ser explicada por fatores compartilhados. O cuidado cardiovascular ao longo da vida é recomendado, e os mecanismos exatos permanecem sob investigação ativa.
A resposta honesta é que ainda não se sabe completamente. A cirurgia remove as lesões visíveis e reduz a carga inflamatória local; o dano endotelial acumulado pode ou não ser parcialmente revertido. Sobre uso preventivo de aspirina e estatinas: até o momento, não existem ensaios clínicos que tenham testado essas drogas especificamente em mulheres com endometriose. Um editorial no European Heart Journal Open em 2025 defendeu exatamente a realização desses estudos. Não há, portanto, base científica para indicar essas drogas apenas pelo diagnóstico de endometriose; a decisão segue critérios cardiológicos habituais.
Sim, e a relação vai além do estresse emocional secundário. Citocinas inflamatórias circulantes interferem em neurotransmissores do humor, especialmente serotonina e dopamina. O eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal permanece cronicamente desregulado. Um estudo no JAMA Network Open em 2023 demonstrou, usando análise genética de grande escala, que a associação entre endometriose, depressão maior e transtornos de ansiedade tem componentes biológicos concretos.
A literatura sugere que sim, com a ressalva metodológica de que muitos estudos são de braço único, sem grupo controle. Um estudo prospectivo brasileiro publicado em 2024 descreveu redução significativa de ansiedade e depressão seis meses após cirurgia para endometriose profunda. Adolescentes tratadas com cirurgia seguida de terapia hormonal também apresentaram melhora do estado psicoafetivo em estudos observacionais. O suporte psicológico contínuo permanece recomendado, pois a sensibilização central pode persistir.
Sim, de forma bidirecional. O microbioma intestinal alterado pode reativar o estrogênio que deveria ser eliminado, contribuindo potencialmente para o crescimento das lesões. O eixo intestino-cérebro amplifica a percepção da dor e os sintomas emocionais. A cirurgia, por si só, não normaliza o microbioma — estratégias complementares como dieta anti-inflamatória e probióticos podem ser benéficas.
A endometriose associa-se a aumento relativo do risco de certos cânceres, mas a maioria das mulheres não desenvolverá câncer. As principais associações descritas são: câncer de ovário, com aumento relativo de 30 a 90%, predominantemente para subtipos endometrioide e células claras (em risco absoluto, o risco populacional de 1,3% pode chegar a 1,8–2,5% ao longo da vida); câncer de endométrio, com literatura heterogênea — um estudo populacional recente mostrou OR de 3,61, número significativamente maior do que meta-análises anteriores, ainda exigindo replicação; e câncer de tireoide, com aumento relativo de 20 a 40% em estudos populacionais. A vigilância oncológica regular permanece fundamental.
Sim. A tireoidite de Hashimoto é mais prevalente em mulheres com endometriose, compartilhando mecanismos de disfunção imunológica. Estudos populacionais mostram risco relativo aumentado para câncer de tireoide, na ordem de 20 a 40%. A avaliação da função tireoidiana — TSH, T4 livre e anticorpos antitireoidianos — é parte recomendada do acompanhamento clínico integral.
Sim. A cirurgia trata as lesões visíveis, mas não cura a doença de forma definitiva. Os riscos cardiovascular, oncológico e autoimune persistem e exigem monitoramento contínuo. Séries históricas descrevem 36 a 50% de recorrência em cinco anos; séries atuais, com excisão completa e supressão hormonal pós-operatória, descrevem taxas de recorrência sintomática substancialmente menores. O microbioma, o sistema imunológico e a sensibilização central podem permanecer alterados. O seguimento não é opcional — é parte essencial do tratamento.
A prevalência de lúpus, artrite reumatoide, tireoidite de Hashimoto e síndrome de Sjögren tem sido descrita como maior em mulheres com endometriose. Pesquisas de randomização mendeliana sugerem direção causal compatível com a artrite reumatoide, embora a confirmação definitiva exija replicação adicional. A endometriose altera o sistema imunológico, gerando autoanticorpos e um perfil inflamatório sistêmico que apresenta similaridades com o das doenças autoimunes clássicas.
Provavelmente sim. A fadiga intensa tem causas biológicas plausíveis: a inflamação crônica consome energia; citocinas interferem no sono e no metabolismo; o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal fica desregulado; e a dor crônica é, por si só, extenuante. Aproximadamente 65% das mulheres com endometriose relatam fadiga que impacta sua capacidade de trabalho e vida social.
Sim, com base científica crescente. Uma dieta anti-inflamatória — rica em vegetais coloridos, peixes gordos, azeite e fibras, e pobre em açúcar e gorduras trans — está associada à redução de marcadores inflamatórios. O exercício físico regular tem efeito anti-inflamatório comprovado. Probióticos e prebióticos estão sendo estudados como coadjuvantes. Essas medidas não substituem o tratamento médico, mas podem potencializar seus resultados.
A endometriose é altamente heterogênea. Genética, epigenética, microbioma individual, perfil imunológico, histórico hormonal e localização das lesões variam enormemente entre pacientes. Uma mulher pode ter lesões extensas e poucos sintomas; outra, lesões mínimas e dor incapacitante. A ciência atual caminha para classificar fenótipos clínicos distintos, possibilitando tratamentos cada vez mais personalizados.
Dada a natureza multifacetada da doença, o cuidado ideal é multidisciplinar. Além do ginecologista especializado, pode ser necessário envolver gastroenterologista (sintomas intestinais, microbioma), cardiologista (monitoramento cardiovascular), endocrinologista (tireoide, hormônios), reumatologista (condições autoimunes), psicólogo ou psiquiatra (saúde mental), nutricionista (dieta anti-inflamatória) e fisioterapeuta pélvico (dor, reabilitação).
Referências
- Simancas-Racines D, Jiménez-Flores E, Montalvan M, Horowitz R, Araujo V, Reytor-González C. Endometriosis as a systemic and complex disease: toward phenotype-based classification and personalized therapy. Int J Mol Sci. 2026;27(2):908.
- Bao C, Wang H, Fang H. Genomic evidence supports the recognition of endometriosis as an inflammatory systemic disease and reveals disease-specific therapeutic potentials of targeting neutrophil degranulation. Front Immunol. 2022;13:758440.
- Ramírez-Pavez TN, Marín-Sánchez P, Nebot A, García-Izquierdo L, Nieto-Meca L, Sánchez R, et al. Systemic immune and tumor marker profiles in ovarian and deep infiltrating endometriosis: associations with disease severity and symptom burden. Int J Mol Sci. 2025;26(19):9581.
- Tulandi T, Alborzi S. Growing evidence that endometriosis is a systemic disease. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2024.
- Shifon S, Tyrinova T, Veretelnikova T, Pasman N, Chernykh E. Endometriosis as an immune-mediated disease: pathogenetic mechanisms and therapeutic strategies. Front Immunol. 2025;16:1727183.
- Chen LH, Lo WC, Huang HY, Wu HM. A lifelong impact on endometriosis: pathophysiology and pharmacological treatment. Int J Mol Sci. 2023;24(8):7503.
- Yuanyue L, Qian H, Ling L, Liufeng Y, Jing G, Xiaomei W. Impact of gut microbiota on endometriosis: linking physical injury to mental health. Front Cell Infect Microbiol. 2025;15:1526063.
- Hearn-Yeates F, Horne AW, O’Mahony SM, Saunders PTK. The impact of the microbiota–gut–brain axis on endometriosis-associated symptoms: mechanisms and opportunities for personalised management strategies. Reprod Fertil. 2024;5(2).
- Taylor HS, Polimanti R. Epidemiologic and genetic associations of endometriosis with depression, anxiety, and eating disorders. JAMA Netw Open. 2023;6(1):e2251214.
- Parsa S, Noroozpoor R, Dehghanbanadaki H, Khateri S, Moradi Y. Endometriosis and risk of cardiovascular disease: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health. 2025;25(1):245.
- Seitz CS, Brieger A, Dötsch J, Fasching PA, Häberle L, Hübner H, et al. Increased risk of cardiovascular disease in women with endometriosis: a systematic review and meta-analysis. Int J Gynaecol Obstet. 2025.
- Marchandot B, Morel O. Endometriosis: the ongoing quest for therapeutic modulators to prevent cardiovascular adverse outcomes. Eur Heart J Open. 2025;5(3):oeaf044.
- Al-Badawi IA, Abu-Zaid A, Alomar O, Alsabban M, Alsehaimi SO, Alqarni SMS, et al. Association between endometriosis and the risk of ovarian, endometrial, cervical, and breast cancer: a population-based study from the U.S. National Inpatient Sample 2016–2019. Curr Oncol. 2024;31(1):416–29.
- Lavor CBH, Vieira Neta FA, Viana AB, Medeiros FC. The impact of surgical treatment for deep endometriosis: metabolic profile, quality of life and psychological aspects. Rev Bras Ginecol Obstet. 2024.
- Szpila G, Szczotka J, Suchodolski A, Szulik M. Endometriosis and cardiovascular disease: exploring pathophysiological interconnections and risk mechanisms. Diagnostics (Basel). 2025;15(12):1458.
- Bourdon M, Santulli P, Marcellin L, Maignien C, Maret-Moutout A, Chapron C. Endometriosis and female infertility: a comprehensive review. J Clin Med. 2022;11(19):5926.
- Holoch KJ, Lessey BA. Endometriosis and infertility. Clin Obstet Gynecol. 2022;65(3):720–740.
- Reschini M, Busnelli A, Somigliana E, Paffoni A, Vegetti W, Vercellini P. Endometriosis and assisted reproduction: a comprehensive review. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2024;92:102433.