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Tratamento da endometriose: muito além das cirurgias e dos tratamentos hormonais

Uma abordagem neurofuncional, multimodal e humanizada para a dor associada à endometriose

Nota ao leitor

Este artigo aborda, em linguagem acessível, o estado atual do conhecimento científico sobre o tratamento da dor associada à endometriose, com ênfase em abordagens que vão além da cirurgia e da terapia hormonal. A literatura consultada compreende publicações entre 2020 e 2026 e está listada ao final. Sempre que uma intervenção apresenta evidência ainda em construção, indicamos essa condição de modo explícito. O artigo encerra com uma seção de 19 perguntas e respostas em linguagem direta.

Introdução

A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva. A doença provoca dor — frequentemente intensa e repetida — que repercute sobre o trabalho, os relacionamentos, o sono e a qualidade de vida. Por décadas, o tratamento orientou-se predominantemente por duas vias: cirurgia e supressão hormonal.

A literatura recente sugere que essa abordagem, embora indispensável, é insuficiente em parte expressiva dos casos. A dor da endometriose não pode mais ser explicada exclusivamente pela presença ou extensão das lesões. Há evidência consistente de mudanças progressivas no sistema nervoso que podem transformar um estímulo periférico em uma dor amplificada, persistente e, em muitos casos, desproporcional ao que o exame mostra. Este artigo apresenta as principais abordagens não cirúrgicas e não hormonais hoje disponíveis, com a respectiva qualidade de evidência.

Por que a dor da endometriose não depende só da lesão

Há mulheres com lesões pequenas que sofrem dores intensas, e há mulheres com lesões extensas que apresentam dor tolerável. A explicação para essa dissociação envolve, de modo importante, o sistema nervoso. Quando o organismo convive com dor persistente, o sistema nervoso central pode tornar-se hipersensível e passar a amplificar os sinais nociceptivos de modo desproporcional ao estímulo de origem.

Esse fenômeno, denominado sensibilização central, corresponde a uma hiperexcitabilidade do sistema nervoso central, com amplificação persistente da dor. Após o tratamento das lesões, a dor pode permanecer porque cérebro e medula continuam reativos a estímulos que antes não eram dolorosos.

Em 2023, Raimondo e colaboradores (Journal of Minimally Invasive Gynecology) identificaram que escores de sensibilização central elevados são frequentes em mulheres com endometriose e associam-se a pior prognóstico de dor mesmo após cirurgia. A avaliação é feita pelo Inventário de Sensibilização Central (CSI), um questionário de triagem subjetivo — útil clinicamente, mas não um exame diagnóstico objetivo da sensibilização.

O que acontece quando o sistema nervoso fica hipersensível

Em condições fisiológicas, o organismo dispõe de mecanismos inibitórios descendentes que impedem que todo estímulo se transforme em dor intensa. Anos de dor repetida, inflamação sustentada, ciclos menstruais sem controle, cirurgias seguidas e noites maldormidas podem esgotar esses mecanismos. O sistema de processamento da dor torna-se progressivamente desregulado, com amplificação difusa do sintoma.

A dor pode então deixar de ser restritamente pélvica, espalhando-se para intestino, bexiga, região lombar e membros inferiores. Outros sintomas costumam emergir: dificuldade para dormir, fadiga persistente, alodinia, alteração do hábito intestinal e dispareunia. O reconhecimento desse quadro de sensibilização central é essencial para o desenho de um plano terapêutico adequado, que tipicamente requer abordagem multidimensional.

Abordagens terapêuticas disponíveis

Tratar a endometriose de modo abrangente exige uma visão integral da paciente, e não apenas das lesões identificadas em exame de imagem. As principais abordagens com base científica disponível são descritas a seguir.

Fisioterapia pélvica

A fisioterapia especializada do assoalho pélvico é uma das ferramentas mais importantes e ainda subutilizadas no tratamento da dor da endometriose. Os músculos do assoalho pélvico frequentemente desenvolvem síndrome miofascial — tensão crônica e pontos-gatilho —, agravada pela cinesiofobia (medo do movimento em razão da dor). A fisioterapia atua simultaneamente em vários planos:

    • Redução da tensão e da síndrome miofascial pélvica;
    • Melhora da função intestinal e urinária;
    • Diminuição da dispareunia;
    • Restauração da mobilidade lombar e dos tecidos comprometidos;
    • Modulação neural da dor — não apenas mecânica.

Meta-análise publicada em julho de 2025 no Pain Medicine (Can et al.) confirmou melhora significativa da dor pélvica, da dispareunia, da mobilidade e da qualidade de vida com fisioterapia pélvica em pacientes com endometriose. É a revisão mais abrangente e atualizada disponível.

Neuromodulação: uma fronteira promissora em construção

Por neuromodulação entende-se o conjunto de técnicas que atuam diretamente no sistema nervoso para reduzir ou recalibrar a amplificação da dor. Trata-se de uma área da medicina da dor em rápida expansão, com algumas modalidades já disponíveis e outras ainda em fase de investigação clínica.

A neuromodulação representa uma mudança de eixo: sai-se de uma abordagem puramente anatômica — tratar a lesão — para uma abordagem que age sobre o sistema nervoso que processa e amplifica a dor. Para a endometriose especificamente, ainda não existem ensaios clínicos randomizados de grande porte que tenham validado neuromodulação isolada como tratamento principal. A evidência indireta, a plausibilidade biológica e os estudos em andamento sustentam o crescente interesse clínico, mas exigem comunicação calibrada — sem subestimar como abordagem alternativa nem superestimar como solução garantida.

TENS — Estimulação Elétrica Transcutânea

O TENS aplica corrente elétrica de baixa intensidade pela pele, ativando fibras nervosas que bloqueiam a transmissão da dor pelo mecanismo de portão (gate control) e ativam vias inibitórias descendentes. É um dispositivo de uso domiciliar, não invasivo, geralmente bem tolerado. As contraindicações práticas incluem marca-passo cardíaco, áreas com sensibilidade alterada, pele lesionada e certas localizações durante a gestação.

A evidência mais robusta do TENS é para a dismenorreia primária — ensaios clínicos randomizados, incluindo Aubin et al. (Neuromodulation, 2022), mostraram alívio significativo da cólica menstrual versus placebo. Para a dor crônica específica da endometriose, ainda não há resultado de ensaio randomizado dedicado; o estudo NCT05152264 (Universidade de Gotemburgo) está em andamento. Na prática clínica, o TENS é considerado uma ferramenta de baixo risco que pode ser experimentada como adjuvante, principalmente para o componente dismenorreico.

Estimulação do nervo vago

O nervo vago regula a inflamação e o tônus autonômico em todo o organismo. Dispositivos não invasivos posicionados no pescoço ou na orelha estimulam ramos desse nervo, com a hipótese de reduzir a atividade simpática excessiva e modular centralmente a dor.

A estimulação vagal tem evidência crescente em outras condições de dor crônica e em doenças inflamatórias sistêmicas. Para a endometriose especificamente, ainda não há resultado publicado de ensaio randomizado. O estudo Stim-Endom (NCT04177511, França) está em curso (2021–2027). Uma revisão sistemática em neuropelveologia de 2024 classifica essa abordagem como promissora, reconhecendo o estágio inicial da evidência específica. Trata-se de fronteira ativa de pesquisa, com base biológica plausível, e não ainda de tratamento de primeira escolha.

Neuromodulação sacral e estimulação do gânglio da raiz dorsal

São intervenções mais invasivas, indicadas para casos selecionados de dor crônica refratária às abordagens convencionais. A neuromodulação sacral (SNM) estimula raízes nervosas sacrais; a estimulação do gânglio da raiz dorsal (DRG-S) é mais precisa, atuando em grupos neurais específicos.

A evidência específica para dor pélvica crônica por endometriose ainda é limitada a estudos pequenos. Zegrea e colaboradores (AOGS, 2023) descreveram resultados favoráveis com SNM em série pequena. Publicação no Journal of Neuromodulation (dezembro 2024), com DRG-S em nove pacientes, mostrou redução expressiva da dor (VAS 9 → 2) em doze meses, com redução do uso de opioides. O n pequeno indica evidência de prova de conceito, não validação para uso amplo. Essas técnicas são opções para casos cuidadosamente selecionados, em centros especializados, após esgotadas as abordagens menos invasivas.

Síntese sobre neuromodulação. No momento, a plausibilidade biológica é forte, a evidência indireta é favorável, mas a evidência específica em endometriose ainda está sendo construída. O TENS é a modalidade mais acessível e segura para tentativa adjuvante; a estimulação vagal não invasiva é a fronteira de pesquisa mais ativa; as modalidades invasivas (SNM, DRG-S) são opções para casos refratários selecionados. A neuromodulação não substitui o controle da doença de base — complementa o plano multimodal.

Medicina da dor e farmacologia não hormonal

Quando a dor se torna crônica e resistente, configura-se uma doença em si. O especialista em medicina da dor dispõe de ferramentas farmacológicas específicas para modular o sistema nervoso sem hormônios. Os principais agentes utilizados como anti-hiperalgésicos são:

Antidepressivos duais: duloxetina e venlafaxina, que modulam vias descendentes da dor.

Antidepressivos tricíclicos: amitriptilina, com ação analgésica central em doses baixas.

Anticonvulsivantes: gabapentina e pregabalina, que reduzem a hiperexcitabilidade neuronal.

Esses medicamentos não são prescritos como antidepressivos nesse contexto. Atuam especificamente como moduladores da transmissão da dor no sistema nervoso central, em doses e regimes específicos para essa finalidade, e devem ser indicados por especialista em medicina da dor.

Abordagens mente-corpo: TCC, EMDR e mindfulness

Em coortes de tertiary care, a prevalência de transtorno de estresse pós-traumático em mulheres com dor pélvica crônica pode chegar a 39%; é importante observar que esse número deriva de populações altamente selecionadas e não representa necessariamente a prevalência geral. Pensamento catastrófico e sensação de injustiça estão fortemente correlacionados com a intensidade da dor — podendo ser tanto causa quanto consequência da experiência prolongada de dor.

As abordagens com maior suporte de evidência incluem:

TCC — Terapia Cognitivo-Comportamental: modifica padrões de pensamento que amplificam a dor.

EMDR: indicada quando há trauma associado à experiência de dor crônica.

Mindfulness e MBCT: reduzem a resposta de sofrimento associada à dor e melhoram o sono.

Hipnose clínica: atua diretamente na modulação central da percepção dolorosa.

HaPPI Trial (Evans et al., Hum Reprod Open, 2026 — verificar status final de publicação): TCC por teleconferência em 334 participantes melhorou significativamente qualidade de vida e dor versus controle. Donatti et al. (J Health Psychol, 2025): RCT brasileiro confirmou melhora em dor, estresse, depressão e qualidade de vida com TCC em 52 pacientes com endometriose. Moreira et al. (Eur J Pain, 2023): mindfulness foi associado a redução de dor pélvica via redução mensurável da catastrofização; a direção causal específica continua sob investigação.

Tratamento do sono

Durante o sono profundo, o organismo produz substâncias que inibem a dor. Quando o sono é fragmentado, esse processo falha e o limiar de tolerância à dor cai. A dor atrapalha o sono e o sono ruim agrava a dor, configurando um ciclo que precisa ser interrompido como parte do plano terapêutico.

Dowding et al. (Applied Psychology Health and Well-Being, 2023): estudo prospectivo de doze meses mostrou que qualidade do sono e sofrimento emocional têm efeito temporal estatisticamente significativo sobre a intensidade da dor em mulheres com endometriose.

Tratar o sono significa identificar e corrigir os fatores que o interferem: rotina irregular, uso de telas à noite, ansiedade, dor mal controlada. A TCC para insônia, a higiene do sono e, quando necessário, suporte medicamentoso criterioso são partes dessa estratégia.

Atividade física adaptada

O movimento, quando feito de modo gradual e orientado, é um dos moduladores naturais da dor com evidência consistente — libera endorfinas, reduz a inflamação sistêmica e melhora humor e sono. O desafio prático é a cinesiofobia, que mantém a paciente parada e agrava o descondicionamento físico.

Meta-análise publicada em fevereiro de 2025 na PLOS ONE (Chrobak et al.) — seis ensaios clínicos randomizados, 251 pacientes — confirmou impacto positivo significativo na qualidade de vida relacionada à dor (p<0,0001), no controle emocional e no bem-estar de mulheres com endometriose.

Yoga, pilates, hidroginástica e caminhadas leves são pontos de partida seguros. A chave é a progressão gradual, respeitando os limites do momento, sempre com orientação profissional.

Alimentação anti-inflamatória e suplementação

A endometriose é uma doença inflamatória, e a alimentação tem papel real na modulação dessa inflamação. Não há dieta milagrosa, mas padrões alimentares anti-inflamatórios apresentam suporte científico consistente: frutas e vegetais coloridos, peixes com ômega-3, azeite extravirgem, grãos integrais — com redução de ultraprocessados, açúcar refinado e gorduras trans.

Naeini et al. (Int J Gynaecol Obstet, 2025): meta-análise avaliada pela ferramenta GRADE confirmou que suplementos anti-inflamatórios podem reduzir a dor pélvica em mulheres com endometriose. Gudarzi et al. (Phytother Res, 2024): RCT triplo-cego mostrou redução de dor com curcumina 500 mg duas vezes ao dia por oito semanas em estudo único iraniano — sinalização interessante que ainda exige replicação antes de tornar-se recomendação consolidada. Estudo publicado em Frontiers in Nutrition (2025/2026, referência exata a verificar) com suplementação de ômega-3 descreveu redução de marcadores inflamatórios séricos (IL-6, TNF-α); redução de biomarcadores não é equivalente a melhora clínica significativa, que precisa ser avaliada em separado.

Acupuntura e terapias integrativas

Revisões sistemáticas recentes confirmam que a acupuntura pode reduzir significativamente a dor menstrual e pélvica na endometriose. Age pela liberação de substâncias analgésicas endógenas e pela modulação das vias centrais de processamento da dor — funcionando, conceitualmente, como uma forma de neuromodulação.

Chen et al. (Arch Gynecol Obstet, 2024): meta-análise de ensaios clínicos randomizados confirmou melhora clínica da dor por endometriose com acupuntura. Revisão em Integrative Medicine Research (2023): meta-análise em rede reforçou o benefício comparando diferentes modalidades de acupuntura.

Tratar a sensibilização e a doença simultaneamente

Tratar apenas a sensibilização central sem controlar a endometriose ativa tende a ser inadequado — e o inverso, igualmente. Cada ciclo menstrual com endometriose ativa funciona como novo estímulo inflamatório, equivalente a alimentar continuamente um processo que se procura interromper. Se a doença permanece gerando inflamação, o sistema nervoso continua sendo reativado, e parte do progresso obtido na modulação da dor pode ser desfeito.

O bloqueio da atividade da doença — com progestagênios contínuos, combinações hormonais, análogos de GnRH ou cirurgia selecionada — permanece indispensável. O modelo clinicamente mais defensável é integrado: controlar a doença e modular o sistema nervoso simultaneamente.

Limites da cirurgia para o controle da dor

A cirurgia tem papel importante no tratamento da endometriose — especialmente para lesões que causam obstrução, comprometem a fertilidade ou são profundamente infiltrativas. Não é, contudo, solução universal para a dor.

Estudos mostram que mulheres com sinais de sensibilização central antes da cirurgia tendem a apresentar maior chance de manter dor no pós-operatório — mesmo quando o procedimento foi tecnicamente bem-sucedido. A cirurgia trata a anatomia, mas não atua diretamente sobre o sistema nervoso hipersensibilizado. Cirurgias repetidas em uma região já sensibilizada podem, teoricamente, agravar a sensibilização. A decisão cirúrgica deve, portanto, ser tomada dentro do contexto clínico completo, sempre acompanhada de um plano multimodal que contemple também o sistema da dor.

O papel do tempo e da continuidade no tratamento

A sensibilização central leva tempo para se instalar e leva tempo para regredir. O tratamento precisa ser consistente, multimodal e continuado. Cada melhora no sono, cada sessão de fisioterapia, cada aplicação de neuromodulação, cada dia de movimento e cada consulta psicológica contribuem para o processo gradual de recalibração do sistema nervoso.

Em séries clínicas, as mulheres com melhores resultados são aquelas que encontram uma equipe multidisciplinar comprometida e que se tornam agentes ativas do próprio cuidado — não pacientes passivas à espera de uma solução isolada.

Considerações finais

A dor da endometriose é real, multifatorial e complexa. Merece ser tratada com seriedade científica, empatia clínica e o conjunto de ferramentas hoje disponível. Isso inclui reconhecer quando o sistema nervoso já se encontra sobrecarregado e agir diretamente sobre ele.

A neuromodulação representa, hoje, uma das fronteiras mais ativas de pesquisa nesse cuidado. Combinada à fisioterapia pélvica, ao suporte psicológico, ao cuidado com o sono, à atividade física adaptada, à alimentação anti-inflamatória, à acupuntura e ao controle adequado da doença de base, compõe um plano integrado moderno — ainda em construção em vários aspectos, mas já com componentes de evidência sólida.

Tratar a endometriose é, em essência, tratar a dor — e tratar a dor é tratar a vida da mulher como um todo.

Perguntas e Respostas: Muito além das cirurgias e dos tratamentos hormonais

Não. Uma mulher pode ter lesões pequenas e sentir dor intensa, enquanto outra com lesões maiores pode ter dor mais tolerável. Essa dissociação envolve, em parte significativa, o sistema nervoso, que pode tornar-se hipersensível diante de dor repetida por anos e passar a amplificar os sinais dolorosos — fenômeno chamado sensibilização central. É por isso que muitas mulheres continuam sofrendo mesmo após cirurgias tecnicamente bem-sucedidas.

Sensibilização central é um estado em que cérebro e medula processam estímulos dolorosos com amplificação persistente, mesmo na ausência de estímulo ativo. É um modelo neurobiológico bem estabelecido em pesquisa de dor crônica em geral, com evidências consistentes — ainda em maturação — de envolvimento na dor da endometriose. Quando já instalada, tratar apenas a lesão por cirurgia ou hormônios frequentemente não resolve. É necessária abordagem combinada com fisioterapia pélvica, medicina da dor, cuidado com o sono e suporte psicológico.

Sim. Meta-análise publicada em 2025 no Pain Medicine (Can et al.) confirmou a eficácia da fisioterapia pélvica para dor associada à endometriose, com melhora da dor, da dispareunia, da mobilidade lombar e da qualidade de vida. A fisioterapia também atua na modulação neural da dor — não apenas mecanicamente. O assoalho pélvico inflamado e tenso da endometriose responde bem a técnicas manuais, liberação miofascial e exercícios específicos.

Neuromodulação é o conjunto de técnicas que atua diretamente no sistema nervoso para reduzir ou recalibrar a amplificação da dor — sem hormônios e sem cirurgia. É importante esclarecer que, para endometriose especificamente, ainda não existem ensaios clínicos randomizados de grande porte que tenham validado neuromodulação isolada como tratamento principal. A evidência atual vem de extrapolação de outras condições de dor crônica, estudos pequenos específicos para endometriose e ensaios em andamento. As modalidades incluem desde o TENS, acessível para uso em casa, até a estimulação do nervo vago e a neuromodulação sacral.

O TENS é um dispositivo que aplica corrente elétrica de baixa intensidade pela pele, ativando fibras nervosas que bloqueiam a transmissão da dor pelo mecanismo de portão e ativando vias inibitórias descendentes do sistema nervoso. A evidência sólida do TENS é para a dismenorreia primária (cólica menstrual comum) — um ensaio clínico randomizado de 2022 (Aubin et al.) confirmou sua eficácia versus placebo. Para a dor crônica específica da endometriose, ainda não há resultado de ensaio randomizado dedicado (NCT05152264 em andamento). Pode ser usado em casa, é não invasivo, com contraindicações pontuais como marca-passo, áreas com sensibilidade alterada e certas localizações na gestação.

O nervo vago regula a inflamação e a dor em todo o organismo. Sua estimulação por dispositivos não invasivos pode reduzir a atividade simpática excessiva e modular a dor centralmente. Para endometriose especificamente, é uma fronteira ativa de pesquisa — ainda não há resultado publicado de ensaio randomizado. O estudo Stim-Endom (NCT04177511, França) está em andamento. Uma revisão sistemática de 2024 identificou essa modalidade como uma das abordagens mais promissoras em investigação para modulação central da dor pélvica.

Sim. Antidepressivos como duloxetina, venlafaxina e amitriptilina atuam como anti-hiperalgésicos — modulando a transmissão da dor no sistema nervoso central, sem serem hormônios. Anticonvulsivantes como gabapentina e pregabalina reduzem a hiperexcitabilidade neuronal. Esses medicamentos não são prescritos como antidepressivos nesse contexto; atuam em vias específicas da amplificação da dor crônica e devem ser indicados por especialista em medicina da dor.

Durante o sono profundo, o organismo produz substâncias que inibem a dor. Quando o sono é fragmentado, esse processo falha e o limiar de tolerância à dor cai de forma mensurável. Estudo prospectivo de doze meses (Dowding et al., 2023) mostrou que qualidade do sono e sofrimento emocional têm efeito temporal significativo sobre a intensidade da dor em mulheres com endometriose. Tratar o sono é parte essencial do plano terapêutico, não um detalhe.

A dor é física e real. Mas o cérebro processa e amplifica esses sinais, e o estado emocional influencia diretamente esses circuitos. O HaPPI Trial (Evans et al., publicação em prelo / 2026 — verificar status final), com 334 participantes, demonstrou que TCC por teleconferência melhorou significativamente a qualidade de vida e a dor em mulheres com endometriose. A TCC é hoje uma das intervenções com mais evidência para dor crônica nessa condição.

Sim. Meta-análise publicada em fevereiro de 2025 na PLOS ONE (Chrobak et al.) — seis ensaios clínicos e 251 pacientes — confirmou que atividade física tem impacto positivo significativo na qualidade de vida relacionada à dor (p<0,0001). A progressão gradual com orientação profissional é a chave; yoga, pilates, hidroginástica e caminhadas são pontos de partida seguros e eficazes.

Sim. Estudo publicado no European Journal of Pain em 2023 (Moreira et al.) mostrou que intervenções baseadas em mindfulness estão associadas à redução da intensidade da dor pélvica e melhora da saúde mental de mulheres com endometriose, e que esse efeito é mediado, em parte, por mudanças cognitivo-afetivas mensuráveis — redução da catastrofização e do afeto negativo. Mindfulness age nos circuitos cerebrais da dor de forma verificável.

Sim, com algumas ressalvas. Meta-análise publicada no Int J Gynaecol Obstet em 2025 (Naeini et al.) confirmou que suplementos anti-inflamatórios podem reduzir a dor pélvica. Um RCT triplo-cego iraniano de 2024 (Gudarzi et al.) mostrou redução de dor com curcumina 500 mg duas vezes ao dia por oito semanas — sinalização interessante, mas ainda um estudo único que precisa de replicação antes de tornar-se recomendação consolidada. Padrões alimentares anti-inflamatórios, como a dieta mediterrânea, têm suporte científico crescente para sintomas da endometriose.

Sim. Meta-análise publicada em 2024 no Archives of Gynecology and Obstetrics (Chen et al.) confirmou que a acupuntura melhora clinicamente a dor relacionada à endometriose. Outra meta-análise na Integrative Medicine Research em 2023 reforçou esse benefício. A acupuntura age liberando substâncias analgésicas endógenas e modulando vias centrais da dor — funcionando conceitualmente como uma forma de neuromodulação.

Porque a cirurgia trata a anatomia, mas não atua diretamente sobre o sistema nervoso hipersensibilizado. Estudo de 2023 (Raimondo et al., JMIG) descreveu que escores elevados de sensibilização central são frequentes na endometriose e estão associados a pior prognóstico de dor mesmo após cirurgia. A cirurgia precisa fazer parte de um plano multimodal que contemple também o sistema nervoso da dor.

A estratégia clinicamente mais defensável é multimodal: controle da doença de base, neuromodulação quando indicada e disponível, fisioterapia pélvica, suporte psicológico com TCC ou mindfulness, cuidado com o sono, atividade física adaptada e alimentação anti-inflamatória. O princípio central é sair de uma visão puramente anatômica para uma abordagem neurofuncional da dor.

Catastrofização é o padrão cognitivo de antecipação do pior diante da dor — “nunca vou melhorar”, “a dor só vai piorar”. Estudo de 2022 (Evans et al., BMC Women’s Health) mostrou que a catastrofização é um dos fatores mais fortemente associados à gravidade da dor menstrual em mulheres com dismenorreia e endometriose. A direção causal é debatida: catastrofização pode amplificar a dor, e dor severa pode gerar catastrofização. Trabalhar esses padrões com TCC é uma das estratégias com melhor evidência.

Sim. O Inventário de Sensibilização Central (CSI) é um instrumento de triagem (questionário de autorrelato), não um diagnóstico objetivo. Avalia dor difusa, fadiga, distúrbios do sono e sensibilidade. Diferentes pontos de corte (40, 45, 50) são usados em diferentes estudos, e pontuações elevadas aumentam a suspeita clínica de sensibilização central. Em 2023, Raimondo et al. publicaram dados de prevalência do CSI elevado especificamente em mulheres com endometriose — reforçando a utilidade da ferramenta para guiar o plano terapêutico.

É uma opção de pesquisa em desenvolvimento, para casos cuidadosamente selecionados em centros especializados. Estudo de 2023 (Zegrea et al., AOGS) mostrou que a neuromodulação sacral é promissora em série pequena para dor pélvica crônica resistente. Em dezembro de 2024, o Journal of Neuromodulation publicou resultados de estimulação do gânglio da raiz dorsal em apenas nove pacientes: redução da escala de dor de 9 para 2 pontos após doze meses, com redução de opioides. É importante interpretar isso como evidência de prova de conceito, não validação para uso amplo — são tratamentos para casos selecionados, com evidência ainda crescente.

Porque cada ciclo menstrual com endometriose ativa tende a gerar inflamação repetida — é como continuar alimentando o processo que se procura interromper. Se a doença permanece ativa, o sistema nervoso continua sendo reativado. O modelo clinicamente mais defensável é integrado: controlar a doença de base e modular o sistema nervoso simultaneamente — raramente um sem o outro.

Referências

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