Porque dois homens com espermograma "normal" podem ter chances diferentes de se tornarem pais?
Por muito tempo, o sêmen foi visto apenas como um “transporte” para os espermatozoides. O exame padrão do fator masculino, o espermograma, avalia concentração, motilidade e morfologia, mas ignora algo que a ciência vem mostrando ser decisivo: o sêmen tem sua própria comunidade de bactérias, chamada microbiota seminal, capaz de interferir diretamente na qualidade do espermatozoide e nos resultados da fertilização in vitro (FIV). Esse tema ganhou ainda mais força no 42º Congresso Anual da ESHRE (European Society of Human Reproduction and Embryology), realizado em Londres, no ExCeL London, de 5 a 8 de julho de 2026, em aula ministrada pela pesquisadora Ida Behrendt-Møller, MD, que discutiu justamente como o microbioma seminal, ao lado do vaginal e do intestinal, influencia os desfechos da reprodução assistida. Este artigo reúne essa discussão com os principais estudos publicados sobre o tema nos últimos anos, incluindo, agora, o que a ciência já sabe sobre como tratar a disbiose seminal.
O que é a microbiota seminal?
É o conjunto de bactérias que vive naturalmente no sêmen. Assim como o intestino ou a vagina, o sêmen não é estéril: abriga comunidades bacterianas específicas, que variam entre homens férteis e inférteis. Quando predominam bactérias “protetoras”, como o Lactobacillus, o ambiente seminal tende a ser mais saudável. Quando predominam bactérias como Prevotella, Staphylococcus ou Streptococcus, o cenário costuma ser de pior qualidade espermática, configurando o que se chama de disbiose seminal.
Quem faz a avaliação x quem não faz: o que muda?
Homens que nunca avaliaram a microbiota seminal seguem investigados apenas pelo espermograma tradicional. Isso significa que até 25% dos casos de infertilidade masculina permanecem sem causa identificada (a chamada infertilidade idiopática), mesmo com parâmetros seminais aparentemente normais, porque o exame convencional simplesmente não enxerga o componente bacteriano.
Homens que avaliam a microbiota seminal, por sequenciamento genético (16S rRNA ou NGS), ganham uma camada extra de informação: identificação de bactérias associadas à pior fragmentação do DNA espermático, à menor motilidade e aos piores desfechos em ciclos de FIV, informação que pode orientar tratamento com antibióticos direcionados, probióticos ou mudanças de hábito antes do ciclo, potencialmente aumentando as chances de sucesso.
Índice
TogglePonto-chave: a diferença não está apenas em “ter ou não ter infecção”, mas em enxergar um fator de risco invisível ao exame tradicional, e que pode ser corrigido antes da tentativa de gravidez.
O que os principais estudos mostram
A maior meta-análise do tema (Farahani et al., Andrology, 2021) reuniu 55 estudos e mais de 51 mil homens. O Lactobacillus foi associado a melhores parâmetros seminais; a Prevotella, a pior qualidade espermática. A bacteriospermia (presença bacteriana no sêmen) aumentou a fragmentação do DNA espermático e reduziu a motilidade, dois fatores diretamente ligados à qualidade embrionária.
Evidência direta em FIV (Alqawasmeh et al., Reproductive BioMedicine Online, 2024) demonstrou algo notável: em cerca de 82% dos casos, bactérias do sêmen foram transferidas para o meio de cultivo onde o embrião se desenvolve em laboratório, sendo o sêmen a principal fonte dessa transmissão na FIV convencional. Staphylococcus e Streptococcus se associaram a pior qualidade espermática. Não houve redução estatisticamente significativa na taxa de gravidez nessa amostra específica, mas o estudo prova, de forma direta, que o embrião entra em contato com bactérias de origem seminal desde os primeiros momentos de vida em laboratório.
A revisão mais completa já publicada (Lira Neto et al., Frontiers in Endocrinology, 2024) reuniu 37 estudos e mais de 9.300 participantes ao longo de 44 anos de pesquisa, concluindo que a microbiota seminal influencia espermatogênese, motilidade, inflamação e resultados reprodutivos de forma consistente, destacando, ainda, fatores ambientais como dieta, tabagismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis como moduladores importantes dessa microbiota.
Fragmentação do DNA espermático (Garcia-Segura et al., Frontiers in Cell and Developmental Biology, 2022) encontrou associação entre perfis bacterianos específicos e aumento do índice de fragmentação do DNA (DFI), achado especialmente relevante porque DFI elevado é um dos fatores que mais reduz as chances de sucesso em FIV.
Estudo prospectivo direto em casais de FIV (Okwelogu et al., Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, 2021) usou sequenciamento 16S rRNA em casais em tratamento e mostrou diferenças relevantes na microbiota seminal entre homens férteis e inférteis, associadas à taxa de fertilização e à qualidade embrionária. Amostras de sêmen com FIV positiva tinham mais Lactobacillus jensenii e Faecalibacterium, e menos Prevotella.
Duas revisões sistemáticas (Brandão et al., Porto Biomedical Journal, 2021, e Osadchiy et al., Current Sexual Health Reports, 2020) confirmam o padrão: o Lactobacillus aparece de forma consistente associado a parâmetros seminais normais, enquanto gêneros como Anaerococcus se associam a pior qualidade espermática, embora ambas reconheçam que a área ainda tem heterogeneidade metodológica e necessita de mais estudos prospectivos de larga escala.
Como é feito o tratamento quando há disbiose seminal?
Uma vez confirmada a disbiose no líquido seminal, geralmente por sequenciamento genético associado a alterações no espermograma ou a fragmentação de DNA aumentada, o tratamento costuma seguir três frentes complementares: eliminar o desequilíbrio bacteriano, reduzir o estresse oxidativo e corrigir fatores ambientais e nutricionais.
- Antibióticos direcionados: Quando há predomínio claro de bactérias potencialmente patogênicas (como Prevotella, Ureaplasma ou Anaerococcus) associado a sinais clínicos ou laboratoriais de infecção, o uso de antibiótico específico, guiado pela identificação bacteriana, pode ser indicado. O uso indiscriminado, sem identificação prévia do agente, não é recomendado, já que também pode eliminar bactérias protetoras.
- Probióticos: É a intervenção mais estudada nos últimos anos. Revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados mostram que cepas específicas de Lactobacillus (como L. rhamnosus) e Bifidobacterium (como B. longum e B. bifidum) melhoram parâmetros seminais, motilidade, concentração, morfologia e volume, além de reduzir o estresse oxidativo e proteger o DNA espermático contra fragmentação. Uma revisão sistemática publicada em 2024 (Oliveira et al., JBRA Assisted Reproduction) reuniu ensaios clínicos randomizados que confirmaram melhora significativa da motilidade espermática após suplementação probiótica em homens com infertilidade idiopática. Relatos de caso mais recentes também descrevem gravidezes bem-sucedidas após intervenção probiótica em homens com disbiose seminal confirmada.
- Antioxidantes: Como grande parte do dano à qualidade espermática causado pela disbiose passa pelo aumento do estresse oxidativo (excesso de radicais livres), a suplementação com antioxidantes, vitamina C, vitamina E, zinco, selênio, coenzima Q10, L-carnitina, ácido fólico e N-acetilcisteína, é frequentemente associada ao tratamento, com evidência de melhora em parâmetros seminais, principalmente em fumantes.
A dieta é importante? Sim, e de forma significativa. Estudos mostram que o consumo elevado de alimentos ultraprocessados está associado a maior risco de astenozoospermia (motilidade espermática reduzida) e a alterações da microbiota seminal via eixo intestinotestículo. A recomendação, sustentada pela literatura sobre disbiose e saúde reprodutiva masculina, é priorizar uma dieta rica em fibras, antioxidantes naturais e ômega-3 (como a dieta mediterrânea), reduzir ultraprocessados, álcool e açúcar, e evitar o tabagismo, fatores que, em conjunto, favorecem um ambiente seminal menos inflamatório e mais equilibrado.
Quais são os critérios para indicar o tratamento? De forma geral, a literatura sugere considerar tratamento da disbiose seminal quando há:
- Alteração nos parâmetros seminais (motilidade, concentração ou morfologia) sem outra causa identificada;
- Fragmentação do DNA espermático (DFI) elevada;
- Identificação de bactérias potencialmente patogênicas em quantidade relevante no sequenciamento seminal;
- Infertilidade idiopática, ou seja, sem causa aparente após investigação convencional;
- Falhas repetidas de FIV apesar de espermograma normal e boa qualidade oocitária. A decisão de tratar, e com qual estratégia, deve ser sempre individualizada pelo especialista, considerando o perfil bacteriano identificado e o contexto clínico do casal.
Monitoramento: Com o ciclo completo de produção de um espermatozoide (espermatogênese) dura cerca de 74 dias, a resposta ao tratamento, seja antibiótico, probiótico ou mudança de hábitos, costuma ser reavaliada após aproximadamente três meses, com repetição do espermograma e, quando disponível, nova análise da microbiota seminal.
Por que isso interfere diretamente no resultado do tratamento?
Juntando esses achados, a lógica é clara:
- A composição bacteriana do sêmen se associa objetivamente à fragmentação do DNA espermático;
- Essas bactérias podem ser fisicamente transferidas ao ambiente onde o embrião se desenvolve;
- Esse padrão se repete de forma consistente em populações e décadas diferentes de pesquisa;
- Já existem estratégias terapêuticas, antibióticos direcionados, probióticos, antioxidantes e ajustes alimentares, capazes de corrigir esse desequilíbrio antes de uma tentativa de gravidez ou de um ciclo de FIV. Isso sustenta a recomendação de considerar a avaliação da microbiota seminal como parte da investigação do fator masculino, sobretudo em casais com infertilidade sem causa aparente ou falhas repetidas de FIV.
Perguntas e respostas MICROBIOTA SEMINAL
É a comunidade de bactérias que vive naturalmente no sêmen, distinta para cada homem.
Não. O espermograma avalia concentração, motilidade e morfologia, mas não identifica a composição bacteriana do sêmen.
Sim, mesmo homens saudáveis. O problema não é a presença de bactérias, e sim o desequilíbrio entre bactérias protetoras e prejudiciais, a disbiose.
O gênero Lactobacillus é consistentemente associado a melhores parâmetros seminais.
Prevotella, Staphylococcus, Streptococcus e Anaerococcus aparecem repetidamente associadas a piores desfechos.
Sim. Um estudo direto em FIV mostrou transmissão em cerca de 82% dos casos, principalmente do sêmen.
Por sequenciamento genético (16S rRNA ou NGS) de uma amostra de sêmen.
Principalmente diante de alterações seminais sem causa clara, fragmentação de DNA elevada, presença relevante de bactérias patogênicas, infertilidade idiopática ou falhas repetidas de FIV.
Não. O antibiótico só é indicado quando há identificação clara de bactéria patogênica associada a alteração clínica ou laboratorial, seu uso indiscriminado pode até piorar o equilíbrio bacteriano.
Sim. Estudos clínicos mostram melhora de motilidade, concentração e proteção do DNA espermático com cepas específicas de Lactobacillus e Bifidobacterium, embora ainda sejam necessários estudos maiores.
Sim. Dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a pior motilidade espermática; uma alimentação rica em fibras, antioxidantes e ômega-3 favorece um ambiente seminal mais equilibrado.
Vitamina C, vitamina E, zinco, selênio, coenzima Q10, L-carnitina, ácido fólico e N-acetilcisteína, sempre sob orientação médica.
Como a produção de espermatozoides leva cerca de 74 dias, a resposta costuma ser reavaliada após aproximadamente três meses de tratamento.
Ainda não de forma rotineira, mas o volume crescente de evidências, incluindo estudos apresentados na ESHRE 2026, sustenta sua relevância crescente.
Que a investigação do fator masculino não deveria parar no espermograma: o ambiente bacteriano do sêmen pode ser tão determinante quanto a contagem e a motilidade dos espermatozoides, e, quando alterado, pode ser tratado.
Sim. Os dois termos são usados como sinônimos na literatura científica para descrever a comunidade de bactérias que vive naturalmente no líquido seminal.
Estudos indicam que elas se originam de diferentes regiões do trato urogenital masculino, uretra, sulco coronal, próstata, vesículas seminais, e também podem ter influência do intestino, por meio do chamado eixo intestino-testículo.
Sim. Por décadas, a urologia acreditava que o sistema geniturinário deveria ser estéril em um homem saudável. Pesquisas mais recentes de sequenciamento genético desfizeram essa ideia, mostrando que o sêmen abriga um microbioma próprio e diverso.
Não. Cada homem tem um perfil de microbiota seminal relativamente único, influenciado por genética, idade, dieta, hábitos de vida e histórico de infecções.
Sim. A relação sexual promove troca de micro-organismos entre os parceiros, e o microbioma seminal pode interagir com o microbioma vaginal, influenciando o ambiente reprodutivo do casal como um todo.
Sim. A disbiose seminal costuma ser silenciosa, sem dor, secreção ou qualquer sintoma perceptível, e só é identificada por meio de exame específico de sequenciamento.
A literatura associa a disbiose seminal a oligozoospermia (baixa concentração), astenozoospermia (baixa motilidade), teratozoospermia (morfologia alterada), fragmentação de DNA elevada e a infertilidade idiopática.
Estudos sugerem que sim, assim como ocorre com outros microbiomas do corpo, embora a relação específica entre idade e composição da microbiota seminal ainda esteja sendo mais bem caracterizada pela ciência.
Não. É necessário um exame específico de sequenciamento genético (16S rRNA ou NGS) da amostra seminal, diferente da cultura de urina ou do espermograma tradicional.
É um campo em expansão acelerada: o volume de meta-análises, estudos prospectivos em FIV e discussões em congressos internacionais como a ESHRE 2026 indica que a microbiota seminal está se consolidando como um novo pilar na investigação da infertilidade masculina.
Referências bibliográficas
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11. 42nd Annual Meeting of the European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE 2026). Londres, Reino Unido, ExCeL London, 5–8 julho de 2026. Aula apresentada por Ida Behrendt-Møller, MD.