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O Útero Também Envelhece: Entendendo o Envelhecimento Uterino na Reprodução Assistida Após os 40 Anos

Dr. Arnaldo Cambiaghi

Dr. Arnaldo Cambiaghi

CRM: 33.692 | RQE 42.074

Durante décadas, a medicina reprodutiva concentrou praticamente toda a sua atenção no envelhecimento dos óvulos. Essa prioridade fazia sentido: a idade feminina reduz a quantidade e a qualidade dos óvulos, aumenta a proporção de embriões com alterações cromossômicas (chamadas de aneuploidias) e diminui progressivamente as chances de gravidez, seja ela natural ou obtida por fertilização in vitro (FIV).

Com o avanço da doação de óvulos, esse obstáculo passou a ser parcialmente contornável. Quando uma mulher de idade mais avançada recebe óvulos de uma doadora jovem, o embrião resultante tende a ter maior potencial genético e cromossômico. Por muito tempo, essa constatação levou a uma crença simplificadora: a de que, contanto que o embrião fosse “jovem”, o útero da receptora pouco importaria para o sucesso da implantação.

Hoje, essa visão precisa ser revista com mais cuidado.

O útero envelhece de forma diferente do ovário, mas também envelhece. Ele preserva sua capacidade reprodutiva por muito mais tempo, porém pode acumular alterações vasculares, hormonais, inflamatórias, imunológicas, musculares (miometriais) e da própria mucosa que reveste sua cavidade (endométrio), interferindo na capacidade de receber e sustentar um embrião. Esse conceito ganha importância decisiva para mulheres acima dos 40-45 anos que buscam engravidar por FIV, especialmente quando utilizam óvulos doados.

A doação de óvulos resolve, de forma expressiva, o fator embrionário. Mas não transforma automaticamente o útero de uma mulher mais velha no útero de uma mulher jovem. O embrião pode ser geneticamente jovem e cromossomicamente normal, mas o ambiente que irá recebê-lo precisa estar biologicamente preparado para essa tarefa.

Esse é o ponto central deste artigo: compreender que a implantação embrionária não depende apenas da qualidade do embrião. Ela depende de um diálogo bioquímico e molecular extremamente preciso entre o blastocisto (o embrião em estágio mais avançado de desenvolvimento, geralmente transferido entre o 5º e o 6º dia de cultivo) e o endométrio. Quando esse diálogo falha, mesmo um embrião de excelente qualidade pode não implantar, ou pode implantar e evoluir para uma perda gestacional precoce.

Revisões sistemáticas recentes indicam que o impacto da idade materna avançada sobre a receptividade endometrial ainda é objeto de debate científico, mas há evidências crescentes de que o envelhecimento interfere de forma mensurável na função endometrial, na decidualização (transformação do endométrio para receber o embrião), na vascularização local, na resposta à progesterona e, consequentemente, na taxa de implantação embrionária.

Ponto-chave: o sucesso da FIV depende de dois protagonistas igualmente importantes, um embrião de boa qualidade e um útero biologicamente preparado para recebê-lo. Focar apenas no primeiro, ignorando o segundo, é um erro cada vez mais reconhecido pela literatura científica.

O útero também envelhece?

Sim. O útero também envelhece, embora de maneira menos evidente e mais lenta do que o ovário.

O ovário envelhece de forma rápida e mensurável. A mulher nasce com um número finito de folículos (a chamada reserva ovariana), que diminui de forma constante ao longo da vida, um processo bem documentado e estudado por meio de marcadores como o hormônio antimülleriano (AMH) e a contagem de folículos antrais. Além da quantidade, aumenta progressivamente com a idade a proporção de óvulos com alterações cromossômicas, o que explica por que a fertilidade natural declina de forma acentuada depois dos 35 anos e cai ainda mais depois dos 40.

O útero segue uma lógica biológica diferente. Ele não possui uma “reserva” que se esgota da mesma maneira que a reserva ovariana. Por isso, pode permanecer capaz de sustentar uma gestação mesmo após a menopausa, desde que receba suporte hormonal adequado e não existam contraindicações clínicas, como demonstram, inclusive, casos bem documentados de gestações em mulheres na sexta década de vida por meio de doação de óvulos.

Isso não significa, porém, que o útero permaneça biologicamente inalterado. Com o passar dos anos, o útero pode apresentar:

  • redução da vascularização (menor chegada de sangue e oxigênio ao endométrio);
  • maior rigidez do miométrio (a camada muscular do útero);
  • maior tendência à fibrose (acúmulo de tecido cicatricial, menos elástico);
  • maior frequência de adenomiose (invasão do endométrio para dentro do músculo uterino);
  • maior presença de miomas e pólipos;
  • alterações inflamatórias silenciosas, sem sintomas evidentes;
  • mudanças na composição da microbiota endometrial;
  • menor resposta funcional à progesterona;
  • alterações imunológicas locais;
  • redução da eficiência da decidualização.

Em termos simples: o útero pode continuar anatomicamente apto a receber um embrião, mas pode não oferecer o ambiente biológico ideal para que esse embrião se fixe, invada o endométrio de forma adequada e inicie a formação de uma placenta saudável.

O que isso significa na prática?

Para a paciente, isso significa que a idade não afeta “só os óvulos”. Mesmo utilizando óvulos de uma doadora jovem, uma mulher de 45 anos pode precisar de uma investigação e um preparo uterino mais cuidadosos do que uma mulher de 30 anos, não porque seu útero seja incapaz de gestar, mas porque ele pode exigir mais atenção para atingir seu potencial máximo de receptividade.

Por que esse assunto ganhou tanta importância nos últimos anos?

Três movimentos convergentes explicam por que o envelhecimento uterino se tornou um tema central na reprodução assistida contemporânea.

Primeiro: o aumento da maternidade tardia. Fatores sociais, profissionais, afetivos e econômicos têm levado cada vez mais mulheres a buscar a gravidez depois dos 40 anos. Uma parcela significativa dessas mulheres chega à reprodução assistida em idade avançada e, em muitos casos, a doação de óvulos representa o caminho com maior chance objetiva de sucesso.

Segundo: a evolução técnica dos laboratórios de FIV. Hoje é possível selecionar embriões com muito mais precisão, cultivá-los até o estágio de blastocisto, vitrificá-los (congelá-los) com altíssimas taxas de sobrevivência e, em situações específicas, avaliar sua constituição cromossômica antes da transferência (teste genético pré-implantacional, ou PGT-A). Com essas ferramentas, quando um embrião geneticamente normal e de boa morfologia não implanta, a pergunta natural passa a ser: o problema estava no embrião, no endométrio, ou na interação entre os dois?

Terceiro: o avanço do conhecimento sobre a biologia endometrial. O endométrio deixou de ser encarado como uma simples “camada” observada ao ultrassom. Hoje sabemos que se trata de um tecido altamente dinâmico, imunologicamente ativo, hormonalmente sensível e molecularmente complexo, com uma janela de receptividade curta e precisa.

A espessura endometrial continua sendo um parâmetro relevante, mas está longe de ser suficiente isoladamente. Um endométrio pode apresentar espessura adequada ao ultrassom e, mesmo assim, ter inflamação subclínica, baixa receptividade molecular, desvio na janela de implantação, disbiose (desequilíbrio da microbiota), endometrite crônica ou resposta inadequada à progesterona.

O que o paciente deve lembrar: nas mulheres com idade mais avançada, sobretudo nas receptoras de óvulos doados, o preparo uterino deixou de ser uma etapa secundária do tratamento, tornou-se uma etapa central, tão importante quanto a escolha do embrião a ser transferido.

O que muda no útero após os 40 anos?

As alterações uterinas relacionadas à idade podem ser agrupadas em três grandes categorias: anatômicas, funcionais e moleculares.

3.1 Alterações anatômicas

Com o avanço da idade, aumenta a frequência de alterações estruturais dentro ou ao redor da cavidade uterina, pólipos, miomas, sinéquias (aderências intrauterinas), irregularidades endometriais e adenomiose.

Essas alterações prejudicam a implantação por mecanismos distintos: algumas funcionam como obstáculo mecânico direto à fixação do embrião; outras geram inflamação local persistente; outras ainda modificam o padrão de contrações do útero ou comprometem a vascularização adequada da região.

3.2 Alterações funcionais

Mesmo quando a cavidade uterina parece estruturalmente normal aos exames de imagem, o útero pode apresentar alterações funcionais, ou seja, sua forma está preservada, mas sua resposta biológica não é ideal. Isso pode se manifestar como:

  • endométrio que cresce pouco em resposta ao estrogênio;
  • endométrio que cresce adequadamente, mas responde mal à progesterona;
  • janela de implantação deslocada no tempo;
  • contratilidade uterina aumentada (contrações que podem “expulsar” o embrião);
  • vascularização insuficiente;
  • inflamação persistente de baixo grau;
  • alterações imunológicas locais.

3.3 Alterações moleculares

A implantação embrionária depende da ação coordenada de moléculas específicas, entre elas integrinas, LIF (fator inibidor de leucemia), HOXA10 e HOXA11 (genes reguladores do desenvolvimento endometrial), citocinas, fatores de crescimento e moléculas de adesão celular.

Com o envelhecimento, pode haver alteração na expressão desses marcadores. Isso não significa que toda mulher de idade avançada terá falha de implantação, mas ajuda a explicar por que algumas receptoras de óvulos doados, mesmo transferindo embriões de excelente qualidade, apresentam menores taxas de gravidez ou maior risco de perda gestacional precoce.

O que isso significa na prática?

Uma avaliação uterina completa não deve se limitar ao ultrassom de rotina. Em casos de falha de implantação recorrente ou idade materna avançada, a investigação anatômica (histeroscopia), funcional (resposta hormonal) e, quando disponível e clinicamente indicada, molecular, pode revelar alterações tratáveis que, de outra forma, passariam despercebidas.

Alterações hormonais

O endométrio é profundamente dependente da ação hormonal cíclica.

Na primeira fase do ciclo menstrual, o estrogênio estimula a proliferação (crescimento) do endométrio. Após a ovulação, a progesterona transforma esse endométrio proliferativo em um tecido secretor, organizado e receptivo, preparado para a implantação embrionária.

Nas mulheres que recebem óvulos doados, o preparo endometrial costuma ser feito artificialmente, com estrogênio e progesterona administrados por diferentes vias — oral, transdérmica, vaginal, subcutânea ou intramuscular, dependendo do protocolo escolhido pela equipe médica.

O problema é que não basta administrar hormônios: o útero precisa responder adequadamente a eles. Com o envelhecimento, podem ocorrer alterações nos receptores hormonais presentes nas células endometriais, na sinalização intracelular subsequente e na resposta funcional final do tecido. Em algumas mulheres, mesmo com níveis séricos (no sangue) adequados de progesterona, o tecido endometrial pode não completar uma decidualização perfeita.

Isso é clinicamente relevante porque a progesterona é, por excelência, o hormônio da implantação: ela organiza a arquitetura do endométrio, reduz as contrações uterinas, modula a resposta imunológica local e prepara as células endometriais para receber o embrião.

Quando a resposta tecidual à progesterona é inadequada, podem ocorrer:

  • deslocamento da janela de implantação;
  • menor adesão embrionária ao endométrio;
  • falha de implantação;
  • maior risco de aborto no início da gestação;
  • placentação deficiente, com possíveis repercussões ao longo da gravidez.

Ponto-chave: em mulheres de idade mais avançada, o preparo hormonal deve ser individualizado. Dose, via de administração, tempo de exposição e níveis séricos de progesterona precisam ser avaliados com rigor, não existe um protocolo único que sirva igualmente para todas as pacientes.

O que isso significa na prática?

Se uma transferência embrionária falha mesmo com um embrião geneticamente normal, a dosagem de progesterona no sangue próximo ao dia da transferência pode ajudar a identificar pacientes com absorção ou metabolização inadequadas do hormônio, permitindo ajustes de dose ou de via de administração em ciclos futuros.

Alterações vasculares

A implantação embrionária é, antes de tudo, um evento vascular. Para que o embrião se fixe e progrida, o endométrio precisa receber sangue, oxigênio, nutrientes, células do sistema imunológico, hormônios e fatores de crescimento. Após a implantação, o organismo precisa iniciar rapidamente a formação da placenta, um processo que depende de intensa reorganização dos vasos sanguíneos uterinos.

Com o envelhecimento, os vasos sanguíneos podem perder parte de sua capacidade de adaptação. Podem ocorrer redução do fluxo sanguíneo uterino, menor angiogênese (formação de novos vasos) e menor capacidade de remodelamento vascular.

Esse é um ponto frequentemente subestimado: um endométrio pode parecer esteticamente adequado ao ultrassom, trilaminar, com boa espessura, e, mesmo assim, não apresentar qualidade vascular suficiente para sustentar a implantação.

A vascularização endometrial depende de múltiplos fatores, entre eles:

  • VEGF (fator de crescimento endotelial vascular), que estimula a formação de novos vasos;
  • óxido nítrico, que regula a dilatação vascular;
  • progesterona, que participa da transformação secretora do tecido;
  • células imunes uterinas, que auxiliam no remodelamento vascular;
  • saúde metabólica geral da mulher.

Mulheres com hipertensão, resistência à insulina, diabetes, obesidade, doença vascular estabelecida, tabagismo ativo ou inflamação sistêmica crônica podem apresentar maior risco de comprometimento vascular uterino.

O que isso significa na prática?

Antes de uma transferência embrionária em idade avançada, a avaliação clínica geral da paciente é tão importante quanto a avaliação ginecológica específica. O útero não é um órgão isolado, ele reflete a saúde vascular, metabólica e inflamatória de todo o organismo. Por isso, o controle de pressão arterial, glicemia e peso corporal deve ser parte do preparo para a FIV, não apenas uma recomendação genérica de saúde.

Alterações do endométrio

O endométrio é o tecido onde, de fato, o embrião irá se implantar. Ele é renovado ciclicamente e precisa passar por transformações altamente coordenadas no tempo.

Durante a fase proliferativa, o endométrio cresce sob ação do estrogênio. Durante a fase secretora, ele amadurece sob ação da progesterona. Em seguida, abre-se uma janela curta de receptividade, a janela de implantação, durante a qual o endométrio está biologicamente apto a permitir a fixação do embrião.

Nas mulheres mais velhas, podem ocorrer:

  • crescimento endometrial mais lento;
  • menor espessura em alguns ciclos;
  • padrão endometrial ultrassonográfico menos favorável;
  • resposta secretora incompleta à progesterona;
  • maior inflamação local subclínica;
  • maior risco de endometrite crônica;
  • alterações na expressão de genes relacionados à receptividade;
  • alterações na composição da microbiota local.

É fundamental compreender que o endométrio não deve ser avaliado apenas pela espessura observada no ultrassom. A espessura é um marcador útil, mas limitado. Um endométrio de 8 mm pode ser perfeitamente adequado em uma paciente e insuficiente em outra, dependendo da vascularização, da textura (padrão trilaminar), da resposta hormonal, da presença de inflamação e da qualidade biológica geral do tecido.

Ponto-chave: o objetivo da medicina reprodutiva moderna não é apenas “engrossar” o endométrio, é torná-lo verdadeiramente receptivo.

Inflamação crônica: o conceito de inflammaging

Um dos conceitos mais relevantes da biologia do envelhecimento é o inflammaging, termo que une as palavras inglesas inflammation (inflamação) e aging (envelhecimento). Ele descreve um estado de inflamação crônica, persistente e de baixa intensidade, que se estabelece progressivamente com o passar dos anos, mesmo na ausência de qualquer infecção.

Essa inflamação silenciosa costuma não causar dor, febre, corrimento ou qualquer sintoma perceptível pela paciente. Ainda assim, o tecido permanece exposto a sinais inflamatórios crônicos que podem prejudicar sua função.

No útero, o inflammaging pode interferir em múltiplos processos essenciais à gravidez: receptividade endometrial, tolerância imunológica ao embrião, vascularização, decidualização, equilíbrio de citocinas, remodelamento tecidual e formação inicial da placenta.

A implantação exige um equilíbrio imunológico extremamente delicado. O endométrio não pode estar “inerte”, pois precisa permitir a invasão controlada do trofoblasto embrionário. Mas também não pode estar excessivamente inflamado, pois isso pode impedir a implantação ou favorecer perdas gestacionais precoces.

Esse equilíbrio representa um dos maiores desafios da reprodução assistida atual, sobretudo em mulheres com idade avançada, adenomiose, endometriose prévia, obesidade, doenças autoimunes, resistência à insulina ou histórico de falhas repetidas de implantação.

O que isso significa na prática?

Investigar e tratar focos de inflamação crônica silenciosa ,como a endometrite crônica, discutida adiante, pode melhorar significativamente as chances de sucesso em pacientes com falhas de implantação inexplicadas, mesmo quando não há sintomas evidentes.

Senescência celular

A senescência celular é outro conceito essencial para compreender o envelhecimento tecidual. Com o passar do tempo, algumas células param de se dividir normalmente, mas permanecem vivas e metabolicamente ativas. Essas células senescentes passam a liberar um conjunto de substâncias inflamatórias, enzimas e sinais moleculares que alteram o ambiente ao seu redor , fenômeno conhecido pela sigla SASP (do inglês, fenótipo secretor associado à senescência).

No endométrio, o acúmulo de células senescentes pode contribuir para:

  • menor regeneração tecidual a cada ciclo;
  • inflamação crônica de baixo grau;
  • pior resposta hormonal;
  • alteração do processo de decidualização;
  • redução da receptividade endometrial;
  • maior tendência à fibrose.

Essa é uma das áreas mais inovadoras da pesquisa em medicina reprodutiva. No futuro, terapias capazes de reduzir seletivamente células senescentes, os chamados senolíticos, poderão vir a ser estudadas como estratégia para melhorar a função de tecidos envelhecidos, incluindo o endométrio. No entanto, é importante deixar claro: hoje essas estratégias ainda não fazem parte da prática clínica rotineira no preparo uterino para reprodução assistida.

O que o paciente deve lembrar: existem pesquisas muito promissoras nessa área, mas atualmente não há nenhuma medicação aprovada e cientificamente comprovada para “rejuvenescer” completamente o útero.

Fibrose uterina

Fibrose é o termo usado para descrever o aumento da deposição de colágeno e matriz extracelular em um tecido, em termos simples, é como se o tecido se tornasse progressivamente mais rígido, menos elástico e menos funcional.

No útero, a fibrose pode atingir principalmente o miométrio, a camada muscular. Um miométrio mais rígido tende a apresentar pior vascularização, contrações menos coordenadas e menor capacidade de adaptação durante a implantação e o início da gestação.

A fibrose uterina pode estar associada a:

  • idade avançada;
  • adenomiose;
  • cirurgias uterinas prévias (como miomectomias ou cesarianas);
  • inflamação crônica;
  • presença de miomas;
  • curetagens repetidas;
  • endometrite crônica;
  • alterações vasculares de base.

Esse aspecto ainda é pouco discutido nas consultas, mas pode ser decisivo para o resultado do tratamento. O útero não é apenas uma cavidade onde o embrião é posicionado — é um órgão vivo, muscular, vascular e imunologicamente ativo. Sua elasticidade, sua contratilidade e sua capacidade de remodelamento são fundamentais tanto para a implantação quanto para a manutenção da gestação.

O que isso significa na prática?

Ao avaliar uma mulher de idade avançada, especialmente com histórico de cirurgias uterinas ou falhas repetidas de implantação, é importante investigar não apenas se a cavidade uterina está “aberta” e normal à histeroscopia, mas se o útero, como um todo, apresenta características biologicamente favoráveis à gestação.

Alterações imunológicas

A gravidez é, do ponto de vista imunológico, um fenômeno extraordinário. O embrião carrega metade do material genético do pai e, portanto, não é geneticamente idêntico ao organismo materno. Ainda assim, o sistema imunológico da mulher precisa tolerar esse embrião “parcialmente estranho” e permitir sua implantação e desenvolvimento.

Isso não significa que a imunidade materna precise estar “baixa” ou suprimida, pelo contrário: ela precisa estar regulada com precisão.

No endométrio, diversos tipos celulares participam ativamente da implantação: as células NK uterinas (um tipo de célula imunológica diferente das células NK do sangue periférico), macrófagos, linfócitos T reguladores e células dendríticas. Elas participam da comunicação com o embrião, da formação de novos vasos, da decidualização e do início da placentação.

Com a idade e com a instalação de processos inflamatórios crônicos, esse delicado equilíbrio pode se alterar, favorecendo:

  • excesso de citocinas inflamatórias;
  • redução da tolerância imunológica ao embrião;
  • alterações na função das células NK uterinas;
  • menor remodelamento vascular adequado;
  • falhas na comunicação bioquímica entre embrião e endométrio.

Isso não significa que todas as pacientes devam receber tratamentos imunológicos, esse é um ponto fundamental a ser esclarecido. Corticoides, heparina, aspirina, intralipid, G-CSF (fator estimulador de colônias de granulócitos), tacrolimus ou outras terapias imunomoduladoras devem ser considerados apenas em situações clínicas selecionadas, com histórico compatível e, idealmente, biomarcadores que justifiquem sua indicação.

Ponto-chave: na reprodução assistida moderna, o caminho não é tratar todas as mulheres como se tivessem um problema imunológico. O caminho correto é identificar, com critério, quem realmente se beneficia de uma investigação e intervenção imunológica.

A microbiota uterina

Durante muitos anos, acreditou-se que a cavidade uterina fosse completamente estéril. Estudos mais recentes, utilizando técnicas de sequenciamento genético de última geração, mostraram que essa premissa não é verdadeira.

O endométrio possui uma microbiota própria, formada por diferentes microrganismos que, nas mulheres saudáveis, convivem em equilíbrio. Esse ambiente costuma ser predominantemente composto por bactérias do gênero Lactobacillus, que ajudam a manter um meio menos inflamatório e biologicamente mais favorável à implantação embrionária.

Quando ocorre um desequilíbrio dessa microbiota, condição chamada de disbiose, pode haver aumento da produção de substâncias inflamatórias, alteração da comunicação molecular entre embrião e endométrio, e piora geral da receptividade uterina.

Embora ainda existam controvérsias na literatura científica sobre a utilização rotineira de testes de microbiota endometrial para todas as pacientes, essa avaliação pode ser considerada em casos selecionados: mulheres com falhas repetidas de implantação, perdas gestacionais recorrentes, ou suspeita clínica de endometrite crônica.

Ainda são necessários estudos de maior qualidade metodológica para definir com precisão quais pacientes realmente se beneficiam dessa investigação, mas a microbiota uterina representa, hoje, uma das áreas mais promissoras da medicina reprodutiva.

O que isso significa na prática?

Em pacientes com falhas de implantação sem outra causa identificada, a avaliação da microbiota endometrial pode ser um exame complementar a ser discutido com a equipe médica, embora ainda não seja indicada de forma universal para todas as pacientes em FIV.

Adenomiose: uma das principais inimigas silenciosas da implantação

A adenomiose é uma condição bastante frequente após os 40 anos. Ela ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio invade o músculo uterino (miométrio), provocando inflamação local, aumento do volume uterino e alteração da contratilidade do órgão.

Sabe-se, hoje, que a adenomiose não é apenas uma condição associada a dor pélvica ou aumento do fluxo menstrual, ela também pode alterar profundamente a implantação embrionária, por meio de:

  • aumento da inflamação uterina local;
  • alteração do padrão de contrações do útero;
  • pior vascularização endometrial;
  • espessamento da chamada zona juncional (a interface entre endométrio e miométrio);
  • alteração da receptividade endometrial;
  • aumento do risco de aborto espontâneo;
  • maior incidência de parto prematuro;
  • alterações na formação inicial da placenta.

Em pacientes com adenomiose relevante, especialmente naquelas com histórico de falhas repetidas de implantação, diversos estudos apontam benefício potencial do uso de agonistas do GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas) antes da transferência embrionária, com o objetivo de reduzir temporariamente a atividade inflamatória uterina. Essa estratégia, no entanto, deve sempre ser individualizada pela equipe médica, considerando riscos e benefícios de cada caso.

Miomas

Os miomas representam o tumor benigno mais frequente do útero, e sua incidência aumenta progressivamente com a idade. Entretanto, é importante esclarecer: nem todo mioma reduz as chances de gravidez.

  • distorcem a cavidade uterina;
  • estão localizados muito próximos ao endométrio;
  • apresentam grande volume;
  • alteram a vascularização local do endométrio.

Os miomas submucosos (que se projetam para dentro da cavidade uterina) apresentam o maior impacto negativo comprovado sobre a implantação. Já os miomas intramurais (localizados dentro da parede muscular, sem distorcer a cavidade) devem ser avaliados individualmente, principalmente quando medem mais de quatro centímetros ou estão muito próximos da cavidade uterina.

Antes de uma transferência embrionária, a equipe médica deve sempre responder a uma pergunta objetiva: esse mioma está prejudicando o ambiente onde o embrião será implantado? Se a resposta for afirmativa, sua retirada cirúrgica deve ser considerada previamente ao tratamento.

Pólipos endometriais

Os pólipos representam pequenas áreas de crescimento exagerado, localizado, do tecido endometrial. Embora a maioria seja benigna e assintomática, eles podem interferir na implantação embrionária ao atuar como:

  • barreira mecânica à fixação do embrião;
  • foco de inflamação local;
  • fator de alteração da vascularização local;
  • fator de alteração da receptividade endometrial geral.

A histeroscopia, exame que permite a visualização direta da cavidade uterina através de uma pequena câmera, continua sendo o método padrão-ouro tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento (remoção) dos pólipos. Antes da transferência embrionária, a recomendação é que a cavidade uterina esteja absolutamente normal.

Endometrite crônica

A endometrite crônica é, provavelmente, uma das condições mais subdiagnosticadas em toda a reprodução assistida. Diferentemente das infecções ginecológicas agudas, ela geralmente não provoca dor intensa nem febre, a grande maioria das mulheres afetadas não apresenta qualquer sintoma perceptível. Mesmo assim, o endométrio permanece continuamente inflamado, de forma silenciosa.

Essa inflamação crônica modifica a vascularização local, a resposta imunológica do tecido, o processo de decidualização e a comunicação molecular entre embrião e endométrio.

Diversos estudos mostram maior prevalência de endometrite crônica em pacientes com falha recorrente de implantação, abortamento de repetição e infertilidade sem causa aparente identificada em investigações convencionais.

O diagnóstico pode ser realizado por meio de histeroscopia associada a biópsia endometrial, com pesquisa de plasmócitos (um tipo de célula imunológica) por meio de marcação imuno-histoquímica com o marcador CD138. Quando a condição é confirmada, o tratamento antibiótico adequado costuma melhorar significativamente o ambiente uterino e as chances de sucesso em ciclos subsequentes.

A decidualização

Poucas pacientes conhecem esse termo, mas ele descreve um dos eventos mais importantes de toda a implantação embrionária.

Após a ovulação, a progesterona transforma o endométrio em um tecido completamente diferente daquele observado na primeira fase do ciclo menstrual, esse processo de transformação é chamado de decidualização.

Durante essa transformação: aumenta a produção de nutrientes locais; ocorre reorganização estrutural das células endometriais; os vasos sanguíneos se modificam para sustentar a futura placenta; chegam células imunológicas especializadas na tolerância ao embrião; e tem início a preparação estrutural para a formação da placenta.

Se essa transformação não ocorrer de maneira adequada, o embrião pode até iniciar o processo de implantação, mas dificilmente conseguirá evoluir de forma normal e sustentada. Hoje, acredita-se que alterações no processo de decidualização expliquem parte considerável das perdas gestacionais recorrentes observadas em mulheres de idade mais avançada.

A janela de implantação

O endométrio permanece receptivo à implantação embrionária durante um período curto e bem delimitado, a chamada janela de implantação. Se o embrião chegar antes desse período, o endométrio ainda não estará adequadamente preparado. Se chegar depois, essa janela pode já estar fechada.

Em ciclos preparados artificialmente (como os utilizados em receptoras de óvulos doados), essa sincronização depende diretamente do tempo de exposição à progesterona. Pequenas diferenças no momento exato da transferência, muitas vezes de apenas algumas horas, podem modificar de forma relevante a receptividade endometrial no momento do contato com o embrião.

Por isso, controlar com precisão o momento correto de início e duração do uso de progesterona é um dos aspectos mais importantes de todo o processo de fertilização in vitro, especialmente em pacientes com falhas de implantação prévias inexplicadas.

Como investigar um útero envelhecido

Toda mulher acima dos 40 anos que se prepara para uma transferência embrionária deve ter seu útero cuidadosamente avaliado. Essa investigação pode incluir:

Ultrassonografia especializada — avaliação detalhada do endométrio, da vascularização local, do miométrio, além de rastreamento de adenomiose, miomas e pólipos.

Histeroscopia — permite a visualização direta da cavidade uterina e é considerada o exame padrão-ouro para avaliação intracavitária.

Biópsia endometrial — especialmente útil quando existe suspeita de endometrite crônica.

Ressonância magnética — exame fundamental nos casos de adenomiose mais extensa ou de difícil caracterização pelo ultrassom.

Avaliação metabólica geral — incluindo rastreamento de obesidade, hipertensão, diabetes, resistência à insulina, doenças da tireoide, deficiência de vitamina D e marcadores de inflamação sistêmica.

O útero não pode ser analisado de forma isolada. Ele faz parte de um organismo inteiro, e sua função reflete diretamente a saúde geral da mulher.

Como otimizar a receptividade uterina

Atualmente, a melhor estratégia disponível consiste em identificar e tratar, de forma individualizada, cada alteração encontrada durante a investigação. Isso inclui:

  • correção de pólipos identificados na histeroscopia;
  • retirada de miomas quando clinicamente indicada;
  • tratamento da adenomiose, quando relevante;
  • tratamento da endometrite crônica confirmada por biópsia;
  • preparo hormonal individualizado, ajustado a cada paciente;
  • controle rigoroso dos níveis de progesterona antes da transferência;
  • melhora da saúde metabólica geral;
  • redução do excesso de peso corporal, quando presente;
  • cessação completa do tabagismo;
  • controle adequado da hipertensão arterial;
  • prática regular de atividade física;
  • adoção de uma dieta com perfil anti-inflamatório;
  • suplementação nutricional quando clinicamente indicada.

Atualmente, não existe um único medicamento capaz de “rejuvenescer” o útero de forma isolada. O que existe, com respaldo científico, é uma estratégia multimodal, que busca transformar progressivamente aquele ambiente uterino no mais receptivo possível dentro das limitações biológicas de cada paciente.

Medicina regenerativa: estamos próximos de rejuvenescer o útero?

Este é, talvez, um dos campos mais fascinantes de toda a reprodução humana atual. Diversos grupos de pesquisa em todo o mundo estudam formas de restaurar a função de tecidos envelhecidos, incluindo o endométrio. Entre as principais linhas de investigação estão:

PRP (Plasma Rico em Plaquetas) — pode, teoricamente, estimular angiogênese e a liberação local de fatores de crescimento. As evidências científicas disponíveis ainda são limitadas e heterogêneas.

Células-tronco — diversos estudos pré-clínicos e clínicos iniciais mostram potencial regenerativo sobre o endométrio, mas essa abordagem ainda é considerada experimental.

Exossomos — pequenas vesículas capazes de transportar proteínas, RNAs e fatores de crescimento entre células, com potencial de estimular a regeneração celular. Representam uma das linhas de pesquisa mais promissoras atualmente.

Senolíticos — medicamentos destinados a eliminar seletivamente células senescentes do organismo. Ainda não existem estudos clínicos suficientes que justifiquem sua indicação rotineira em reprodução assistida.

Antifibróticos — novas classes de medicamentos capazes de reduzir a fibrose uterina estão sendo estudadas, representando outra área de grande potencial futuro.

O que o paciente deve lembrar: apesar do grande entusiasmo científico em torno dessas terapias, nenhuma delas está, até o momento, validada para uso rotineiro no preparo uterino da reprodução assistida. Elas permanecem, por enquanto, no campo da pesquisa.

O futuro da reprodução assistida

Durante décadas, a medicina reprodutiva concentrou seus maiores esforços em melhorar a qualidade dos embriões. Hoje, entramos em uma nova era, na qual a próxima grande revolução provavelmente será melhorar o ambiente uterino que recebe esses embriões.

O futuro da área deverá combinar inteligência artificial aplicada à análise de imagens e dados clínicos, medicina regenerativa, biomarcadores endometriais moleculares, avaliação genética e imunológica personalizada, terapias de modulação imunológica individualizada e protocolos de preparo hormonal cada vez mais precisos.

O objetivo final é claro e ambicioso: transformar o útero envelhecido em um ambiente biologicamente mais semelhante ao de uma mulher jovem, dentro dos limites que a ciência permitir alcançar com segurança.

Existe, hoje, um tratamento capaz de rejuvenescer completamente o útero?

Essa é, talvez, a pergunta mais importante de todo este artigo, e a resposta honesta é: ainda não.

Até o presente momento, a medicina não dispõe de nenhum tratamento capaz de devolver, ao útero de uma mulher de 45 ou 50 anos, exatamente as mesmas características biológicas que ele possuía aos 25 ou 30 anos. Isso, no entanto, não significa que nada possa ser feito.

Pelo contrário: sabe-se hoje que a implantação embrionária depende da soma de inúmeros fatores, e que quanto maior o número de alterações corrigidas antes da transferência do embrião, maior tende a ser a chance final de sucesso. Em vez de buscar uma única solução milagrosa, a medicina reprodutiva moderna trabalha com um conceito muito mais realista e eficaz: a otimização global do ambiente uterino, na qual cada pequena melhora contribui para criar um ambiente biologicamente mais favorável ao embrião.

Uma nova forma de pensar: preparar o útero com a mesma atenção dada ao embrião

Nas últimas décadas, a embriologia evoluiu de forma extraordinária. Hoje é possível selecionar os melhores embriões disponíveis, cultivá-los até o estágio de blastocisto com elevada eficiência, vitrificá-los com excelentes taxas de sobrevivência, realizar testes genéticos em situações específicas e individualizar com precisão o momento ideal da transferência.

Talvez tenha chegado o momento de oferecer ao útero essa mesma atenção. Assim como o laboratório de embriologia busca produzir o melhor embrião possível, a equipe médica deve buscar oferecer o melhor endométrio possível. Não basta possuir um embrião excelente, é necessário que exista, do outro lado dessa equação, um ambiente capaz de recebê-lo adequadamente.

Uma proposta prática para mulheres acima dos 40 anos

Embora cada tratamento deva ser individualizado pela equipe médica responsável, uma abordagem sistemática, em quatro etapas, pode aumentar a segurança e a eficácia da transferência embrionária.

Primeira etapa — diagnóstico. Recomenda-se avaliação cuidadosa do útero antes da transferência, incluindo ultrassonografia especializada, histeroscopia quando indicada, avaliação de adenomiose, investigação de endometrite crônica, análise de miomas, pesquisa de pólipos, avaliação metabólica e investigação de doenças inflamatórias associadas. O objetivo é simples: não desperdiçar um bom embrião em um ambiente inadequado.

Segunda etapa — correção das alterações identificadas. Uma vez identificados os problemas, eles devem ser corrigidos: retirada de pólipos, retirada de miomas quando indicada, tratamento da adenomiose, tratamento da endometrite crônica, correção de sinéquias e melhora do controle metabólico geral. Quanto melhor o ambiente uterino, maior tende a ser a probabilidade de implantação.

Terceira etapa — preparo hormonal individualizado. Nem todas as mulheres respondem da mesma maneira aos hormônios utilizados no preparo endometrial. O protocolo deve considerar a dose de estrogênio, a via de administração, o tempo de uso, a espessura endometrial alcançada, o padrão ultrassonográfico observado, os níveis séricos de progesterona e o momento exato programado para a transferência. Pequenas diferenças nesses parâmetros podem modificar significativamente os resultados finais.

Quarta etapa — otimização da saúde geral. O útero faz parte de um organismo inteiro; portanto, melhorar a saúde geral significa também melhorar o ambiente uterino. Os principais cuidados incluem alimentação baseada no padrão da dieta mediterrânea, controle do peso corporal, atividade física regular, controle da pressão arterial, tratamento adequado do diabetes, tratamento das doenças da tireoide, cessação do tabagismo, redução do consumo excessivo de álcool, controle do estresse e sono adequado. Esses fatores influenciam diretamente a inflamação sistêmica, a circulação sanguínea, o metabolismo e a função hormonal — todos com impacto direto sobre a receptividade uterina.

O que esperar nos próximos anos?

A medicina reprodutiva vive, hoje, um momento semelhante ao vivido há cerca de vinte anos em relação aos embriões. Naquela época, discutia-se principalmente a quantidade de óvulos obtidos em cada ciclo; hoje, discute-se detalhadamente a genética embrionária. É provável que, com o útero, ocorra uma evolução equivalente nas próximas décadas.

Muito provavelmente, veremos surgir marcadores biológicos específicos do envelhecimento uterino, testes moleculares de receptividade cada vez mais precisos, inteligência artificial aplicada ao preparo endometrial personalizado, terapias regenerativas mais eficazes e seguras, medicamentos capazes de reduzir a senescência celular de forma controlada, tratamentos antifibróticos específicos para o útero, terapias direcionadas ao microbioma uterino e protocolos personalizados baseados em biomarcadores individuais. É possível que, nas próximas décadas, o termo “rejuvenescimento uterino” passe, de fato, a fazer parte da prática clínica cotidiana.

Conclusão

A fertilidade feminina sempre foi associada, principalmente, à idade dos óvulos. O conhecimento científico acumulado nos últimos anos, no entanto, mostra que essa visão precisa ser ampliada: o útero também sofre modificações relevantes ao longo da vida.

Essas alterações são, em geral, muito mais discretas do que as observadas nos ovários, mas podem interferir de forma significativa na implantação embrionária, principalmente quando associadas à adenomiose, alterações vasculares, inflamação crônica, endometrite, fibrose, alterações imunológicas e redução da receptividade endometrial.

Felizmente, a maioria desses fatores pode ser investigada e, em muitos casos, tratada de forma eficaz. Hoje sabemos que o sucesso da fertilização in vitro depende de dois protagonistas igualmente importantes: um embrião de excelente qualidade e um útero biologicamente preparado para recebê-lo.

A doação de óvulos resolveu grande parte do problema relacionado ao envelhecimento ovariano. O próximo grande desafio da medicina reprodutiva será compreender, de forma cada vez mais profunda, o envelhecimento uterino, e desenvolver estratégias cientificamente validadas para restaurar sua capacidade de implantação. Talvez este seja um dos campos mais promissores de toda a reprodução humana nas próximas décadas, o futuro não será apenas produzir embriões melhores; será, também, preparar úteros melhores.

Perguntas e respostas

Sim. Embora envelheça de forma mais lenta e menos evidente do que os ovários, o útero sofre alterações hormonais, vasculares, imunológicas e estruturais ao longo da vida, que podem reduzir progressivamente sua receptividade à implantação embrionária. Essas mudanças não seguem um padrão único: variam de mulher para mulher, dependendo de fatores genéticos, metabólicos e do histórico ginecológico individual.

Não. A doação de óvulos melhora de forma expressiva a qualidade genética e cromossômica do embrião, resolvendo o principal fator limitante relacionado ao envelhecimento ovariano. No entanto, ela não modifica automaticamente o ambiente uterino da receptora, que continua sujeito às alterações vasculares, hormonais e inflamatórias associadas à sua própria idade.

Não. O envelhecimento uterino varia muito entre as mulheres. Fatores genéticos, hábitos de vida, presença ou ausência de doenças ginecológicas prévias (como adenomiose ou miomas) e a saúde metabólica geral influenciam diretamente esse processo. Algumas mulheres mantêm excelente receptividade uterina mesmo depois dos 45 anos, enquanto outras apresentam alterações relevantes mais precocemente.

Sim. A adenomiose pode alterar a contratilidade do útero, aumentar a inflamação local, modificar a vascularização endometrial e, com isso, reduzir as taxas de implantação embrionária. Em casos mais extensos, também está associada a maior risco de aborto espontâneo e de parto prematuro, o que reforça a importância de sua investigação e tratamento antes da transferência.

Não. Na grande maioria dos casos, a endometrite crônica é silenciosa, sem dor, febre ou corrimento evidentes. Por isso, costuma ser descoberta apenas durante a investigação específica de infertilidade ou de falhas repetidas de implantação, geralmente por meio de histeroscopia associada a biópsia endometrial.

Não. A espessura endometrial é apenas um dos parâmetros avaliados, e isoladamente não garante boa receptividade. Vascularização adequada, padrão trilaminar ao ultrassom, resposta hormonal apropriada e ausência de processos inflamatórios locais são igualmente fundamentais para que o endométrio esteja, de fato, preparado para a implantação.

Ainda não existe um exame isolado capaz de quantificar esse processo de forma direta e definitiva. A avaliação atual é feita pela integração de diversos achados: clínicos, ultrassonográficos, histeroscópicos, laboratoriais e, em casos selecionados, moleculares, sempre interpretados em conjunto pela equipe médica.

Ainda não. Essas são terapias promissoras, com resultados interessantes em estudos preliminares, mas ainda necessitam de ensaios clínicos maiores, randomizados e com metodologia robusta, para que se possa definir com segurança quais pacientes realmente se beneficiam delas e em que contexto devem ser utilizadas.

Sim, de forma significativa. Obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo, alimentação inadequada e sono insuficiente aumentam a inflamação sistêmica e podem comprometer diretamente a receptividade endometrial, além de impactar negativamente a vascularização uterina e a resposta hormonal ao preparo endometrial.

A melhor estratégia disponível atualmente é uma abordagem personalizada e multifatorial: cavidade uterina estruturalmente normal, tratamento das alterações identificadas na investigação (pólipos, miomas, adenomiose, endometrite), preparo hormonal individualizado, controle metabólico adequado, estilo de vida saudável e, evidentemente, transferência de embriões de boa qualidade morfológica e, quando indicado, cromossômica.

Sim. Muitas mulheres nessa faixa etária conseguem engravidar com sucesso utilizando óvulos doados, quando são cuidadosamente avaliadas e adequadamente preparadas do ponto de vista uterino, hormonal e metabólico. A idade cronológica isolada não deve ser o único critério analisado, a saúde geral da paciente e a qualidade do ambiente uterino são, muitas vezes, tão determinantes quanto a idade em si.

Provavelmente será a combinação entre embriões de alta qualidade genética e estratégias cada vez mais precisas para melhorar a receptividade uterina, utilizando biomarcadores moleculares específicos, medicina regenerativa validada cientificamente e protocolos de preparo totalmente personalizados para cada paciente.

Em determinados casos, sobretudo em pacientes com falhas de implantação recorrentes e sem outra causa identificada, alguns testes moleculares específicos podem auxiliar na identificação do momento ideal para a transferência embrionária. No entanto, seu uso rotineiro em todas as pacientes ainda é objeto de debate científico, sendo mais indicado em situações clínicas selecionadas.

Nem sempre. Miomas intramurais pequenos, distantes da cavidade uterina e sem repercussão sobre a vascularização local, muitas vezes não necessitam de intervenção cirúrgica prévia. A decisão deve ser individualizada, considerando o tamanho, a localização exata e o histórico reprodutivo da paciente.

A obesidade afeta ambos. Além de impactar a qualidade ovocitária e a resposta aos tratamentos de estimulação ovariana, ela está associada a maior inflamação sistêmica, resistência à insulina e alterações vasculares que podem comprometer diretamente a receptividade endometrial e a vascularização uterina.

Sim. A atividade física regular contribui para o controle do peso corporal, a redução da inflamação sistêmica, a melhora da sensibilidade à insulina e da saúde vascular geral, todos fatores que impactam, de forma indireta mas relevante, a receptividade uterina.

De forma geral, recomenda-se a histeroscopia sempre que houver suspeita de alterações na cavidade uterina (pólipos, miomas submucosos, sinéquias), histórico de falhas de implantação repetidas, sangramento uterino anormal ou suspeita de endometrite crônica. Em pacientes de idade avançada, muitas equipes optam por realizá-la de forma mais sistemática, dada a maior prevalência dessas alterações nessa faixa etária.

Estudos disponíveis mostram que, em pacientes com endometrite crônica confirmada por biópsia, o tratamento antibiótico adequado está associado à melhora das taxas de implantação e de gravidez em ciclos subsequentes, reforçando a importância de investigar essa condição, especialmente em casos de falha recorrente de implantação.

Sim. Deficiência de vitamina D, disfunções da tireoide, resistência à insulina e outros desequilíbrios metabólicos têm sido associados a menores taxas de implantação e maior risco de perda gestacional. Por isso, a avaliação e correção desses fatores fazem parte de um preparo uterino completo, especialmente em mulheres acima dos 40 anos.

A mensagem central é que o sucesso da fertilização in vitro depende de dois fatores igualmente importantes: a qualidade do embrião e a qualidade do ambiente uterino que irá recebê-lo. Investir tempo e recursos na investigação e otimização do útero — e não apenas na escolha do melhor embrião — pode fazer diferença real nas chances de sucesso, especialmente em mulheres de idade mais avançada.

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