Uma dúvida muito comum após a mudança de SOP para SOMP é se o Consenso de Rotterdam deixou de existir ou se os critérios antigos foram abandonados. A resposta é: não. O que mudou foi principalmente o conceito e a comunicação da síndrome, não a lógica diagnóstica básica em mulheres adultas.
A paciente deixa de ser vista como alguém que tem apenas uma doença “dos cistos no ovário” e passa a ser compreendida como alguém com uma síndrome ovariana, metabólica e poliendócrina. No entanto, para o diagnóstico em mulheres adultas, ainda se utiliza a lógica de pelo menos dois critérios entre três, sempre após a exclusão de outras causas hormonais.
Os três critérios clássicos derivados de Rotterdam são:
- Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial: aumento de hormônios masculinos, que pode aparecer como excesso de pelos, acne, queda de cabelo, oleosidade da pele ou alterações em exames como testosterona, testosterona livre, SHBG, androstenediona e DHEAS.
- Disfunção ovulatória: ciclos menstruais irregulares, ciclos muito longos, oligomenorreia, amenorreia ou sinais de anovulação.
- Morfologia ovariana policística: ovários com muitos folículos pequenos ao ultrassom ou, conforme diretrizes mais recentes e em situações específicas, AMH elevado como marcador substituto da morfologia ovariana policística em mulheres adultas.
Assim, a paciente adulta pode receber o diagnóstico quando apresenta A + B, A + C ou B + C. Isso explica por que uma mulher pode ter SOMP mesmo sem ter, obrigatoriamente, ovários com múltiplos folículos no ultrassom.
É fundamental lembrar que o diagnóstico de SOMP é de exclusão. Antes de confirmar a síndrome, o médico deve afastar outras condições que podem causar sintomas parecidos, como alterações da tireoide, hiperprolactinemia, hiperplasia congênita da suprarrenal, Síndrome de Cushing e tumores produtores de androgênios.
Em adolescentes, a regra é diferente e mais cuidadosa. O diagnóstico não deve ser feito apenas pelo ultrassom, porque ovários multifoliculares podem fazer parte da transição puberal. Nessa fase, valorizam-se principalmente a irregularidade menstrual persistente e o hiperandrogenismo clínico ou laboratorial, sempre com acompanhamento ao longo do tempo.
Portanto, a mudança de SOP para SOMP não elimina os critérios de Rotterdam. Ela muda a interpretação: a síndrome deixa de ser vista como uma alteração restrita aos ovários e passa a ser compreendida como uma condição sistêmica, com repercussões hormonais, metabólicas, reprodutivas, dermatológicas, psicológicas e cardiovasculares.