A condição tradicionalmente conhecida como Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passou a ser chamada de SOMP – Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina. Em inglês, a sigla adotada é PMOS, de Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome. A mudança de nome não significa que a doença tenha mudado, nem que os conhecimentos anteriores tenham perdido valor. O que mudou foi a forma de compreender e comunicar a síndrome.
Durante muitos anos, o termo “ovários policísticos” levou muitas pacientes a acreditarem que a doença era definida apenas pela presença de cistos no ovário. Essa interpretação é incompleta. Em muitas mulheres, o achado ultrassonográfico não representa cistos verdadeiros, mas folículos que não completaram adequadamente seu desenvolvimento. Além disso, algumas pacientes podem preencher critérios diagnósticos da síndrome mesmo sem apresentar ovários com aspecto policístico ao ultrassom.
Por isso, o novo nome é mais fiel ao que acontece no organismo. A palavra “ovariana” mantém a importância das alterações ovulatórias e reprodutivas. A palavra “metabólica” reconhece a relação com resistência à insulina, ganho de peso, diabetes tipo 2, dislipidemia e risco cardiovascular. A palavra “poliendócrina” mostra que vários eixos hormonais podem estar envolvidos, e não apenas os ovários.
Assim, a SOMP deve ser entendida como uma condição hormonal, metabólica e reprodutiva sistêmica. Essa mudança ajuda a paciente a compreender melhor o diagnóstico e também orienta uma investigação mais ampla, que não se limita ao ultrassom, mas inclui ovulação, androgênios, metabolismo, saúde endometrial e riscos futuros. É importante deixar claro que nada mudou em relação ao tratamento e a abordagem clínica, a mudança do nome é exclusiva para facilitar a compreensão e a comunicação dessa síndrome.
Estima-se que a SOMP acometa entre 10% e 13% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo. No entanto, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 70% das mulheres afetadas permanecem sem diagnóstico. A SOMP é a principal causa de disfunção ovulatória, podendo provocar desde ausência de menstruação (amenorreia) até ciclos menstruais irregulares, com atrasos frequentes, além de representar mais de 75% dos casos de infertilidade de causa ovulatória.
Na SOMP, os folículos ovarianos iniciam seu desenvolvimento, mas não completam o processo de maturação e ruptura característico da ovulação. Como consequência, o óvulo não é liberado e esses pequenos folículos permanecem acumulados nos ovários, conferindo o aspecto policístico observado ao ultrassom. Além da alteração ovulatória, ocorre aumento da produção de androgênios (hormônios masculinos), o que pode causar manifestações clínicas como excesso de pelos (hirsutismo), acne e, em algumas mulheres, queda de cabelo (alopecia androgenética). Essas alterações frequentemente impactam a autoestima, a saúde mental e a qualidade de vida das pacientes.
A síndrome também está associada a importantes repercussões metabólicas e cardiovasculares. Mulheres com SOMP apresentam maior risco de resistência à insulina, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia e doenças cardiovasculares. Além disso, a ausência de ovulações regulares pode levar à exposição prolongada do endométrio ao estrogênio sem a ação protetora da progesterona, aumentando o risco de hiperplasia endometrial e câncer de endométrio. Por sua elevada prevalência, pelas repercussões reprodutivas, metabólicas e psicossociais e pelo impacto na saúde ao longo da vida, a SOMP é considerada um dos temas mais relevantes da endocrinologia ginecológica e reprodutiva.