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Como Aumentar as Chances de Sucesso nos Tratamentos de Fertilização?

INTRODUÇÃO

Para muitos casais que passam por tratamentos de infertilidade, a fertilização in vitro representa a última esperança para conseguir um filho. Muitos já passaram por outras tentativas sem sucesso de tratamentos de menor complexidade, como o Coito Programado e a Inseminação Artificial, e por isso, é muito frustrante para eles que depositam todas as suas expectativas neste tratamento, ver que todos os esforços foram em vão. Tempo perdido, disciplina nos horários, injeções, ultrassom, dinheiro gasto, expectativa, ansiedade – a vida parou neste período – e não deu certo!!!

Uma pergunta comum após o teste negativo é: por que o embrião ou os embriões transferidos para o útero não implantaram? A resposta geralmente não é simples, mas algumas hipóteses devem ser avaliadas, pois podem ajudar a esclarecer problemas menos frequentes que ainda não foram pesquisados, mas ao serem diagnosticados, podem ter aumentadas as chances de serem tratados no futuro.

Alimentação e atividade física

O estado nutricional e o estilo de vida podem causar grande influência na fertilidade, tanto feminina quanto masculina. O conjunto de hábitos e práticas diárias, como elevado consumo alcoólico, tabagismo, sedentarismo e consumo alimentar inadequado, pode afetar a saúde reprodutiva de ambos.

Com a diminuição na taxa de fertilidade da população mundial e o aumento pela procura por tratamentos que melhorassem essa condição, o número de pesquisas na área cresceu. Diferentes estudos afirmam que o baixo peso (IMC menor que 17 kg/m2) e as condições de sobrepeso ou obesidade em mulheres (IMC maior que 25 kg/m2) estão associados a um aumento da infertilidade ou a desfechos gestacionais indesejados.

O estado nutricional e o estilo de vida masculino também exercem grande influência sobre a fertilidade. O conjunto de hábitos inadequados também pode afetar a saúde reprodutiva masculina. Acredita-se que os efeitos desses hábitos possam interferir negativamente na produção do sêmen, bem como na qualidade, quantidade e motilidade dos espermatozoides. Essas situações podem ocasionar alterações no funcionamento do sistema reprodutor e interferir negativamente na saúde reprodutiva de homens e mulheres. O casal saudável tem mais chances de engravidar. Esta é uma ótima forma de fortalecer os laços do casal em um projeto que, em última instância, é de ambos.

 O padrão alimentar mediterrâneo vem sendo recomendado como um modelo de alimentação saudável. Este modelo é praticado em diferentes partes do mundo com efeitos benéficos para a saúde humana.

Vale ressaltar que a Dieta Mediterrânea não é apenas um padrão alimentar, mas também uma coleção de hábitos saudáveis tradicionalmente seguidos pelas populações dos países que se localizam ao redor do Mar Mediterrâneo, como Grécia, Espanha, Itália, Portugal, Marrocos, França e os demais ali localizados.

A Dieta Mediterrânea tradicional possui características marcantes, que a transformaram no padrão alimentar mais saudável do mundo. Entre elas estão:

  • Abundância de alimentos frescos e naturais (frutas, vegetais, pães, cereais, batatas, feijões, oleaginosas e sementes);
  • Alimentos cultivados minimamente processados, respeitando a sazonalidade e a regionalidade;
  • Frutas frescas ou doces contendo açúcares ou mel, como sobremesas típicas, consumidos apenas em quantidades moderadas;
  • Azeite de oliva, como a principal fonte de gordura;
  • Produtos lácteos (principalmente queijos e iogurte) consumidos em quantidades moderadas;
  • Consumo médio de quatro ovos por semana;
  • Elevado consume de peixes e frutos do mar;
  • Carne vermelha consumida em baixas quantidades;
  • Consumir sucos naturais de uva (orgânica);
  • Evitar alimentos inflamatórios como aqueles que contenham glúten.

Praticar atividade física regularmente: a população da região mediterrânea era intensamente ativa na época em que iniciaram as pesquisas sobre o padrão, o que demonstra que os bons hábitos não estavam exclusivamente associados ao padrão alimentar. Sendo assim, a prática regular de qualquer atividade física deve ser incentivada para todos os casais interessados em melhorar o seu estilo de vida em busca de uma gestação segura e bem-sucedida. Recomendamos, por exemplo, caminhadas de média intensidade, no mínimo quatro vezes por semana, por 40 minutos.

Para saber mais detalhes sobre padrão alimentar e inflamações crônicas, faça o download dos e-book abaixo:

Hábitos de vida

Tabagismo (cigarro)

O cigarro é considerado o veneno reprodutivo mais potente do século 21. Vários estudos científicos comprovam seu efeito prejudicial sobre a saúde reprodutiva. A fumaça do cigarro contém centenas de substâncias tóxicas, incluindo a nicotina, monóxido de carbono, polônio radioativo, alcatrão, fenol, ácido fórmico, ácido acético, chumbo, cádmio, zinco, níquel, benzopireno e substâncias radioativas, as quais afetam a função reprodutiva em vários níveis. No homem, alteram a produção dos espermatozoides e a qualidade do sêmen, além de levar ao aumento na fragmentação do DNA do espermatozoide, o que está associado à maior taxa de aborto e insucesso nos tratamentos de reprodução. Na mulher, o cigarro altera a motilidade tubária, a divisão das células do embrião, formação do blastocisto, muco cervical, receptividade endometrial (mesmo com óvulos ou embriões doados) e implantação. A fertilidade é reduzida em 25% nas mulheres que fumam até 20 cigarros ao dia, e em 43% naquelas que fumam mais de 20 cigarros, ou seja, o declínio da fertilidade tem relação direta com a dose de nicotina. Durante a gestação, o fumo pode aumentar a incidência de placenta prévia, descolamento prematuro da placenta e parto prematuro. Deve-se sempre estimular as pessoas a parar de fumar, especialmente os casais que estão tentando engravidar e principalmente homens nesta situação, que apresentam contagem de sêmen no limite inferior à normalidade. Entretanto, mesmo com contagem de sêmen normal, o fumo deve ser desencorajado.

Drogas recreativas

A cada ano, novas drogas são introduzidas no “mercado do vício”. Embora nem todas estejam comprovadamente associadas à fertilidade, os prejuízos causados são fortes indícios quando comparados a outras drogas mais antigas. Todas elas agem no sistema nervoso central estimulando, bloqueando e interferindo nos hormônios, principalmente do eixo hipotálamo hipofisário, fundamentais para o bom funcionamento do sistema reprodutor. Por isso, podemos arriscar afirmar que perturbam a fertilidade tanto do homem quanto da mulher.

Álcool

Em doses diminutas, o álcool possui discreta ou nenhuma ação sobre as funções reprodutiva e sexual. O consumo crônico e prolongado, no entanto, prejudica ambas as funções, podendo atingir mais de 80% de comprometimento nos dependentes. Uma meta-análise indicou que as mulheres que bebem três ou mais drinques por dia têm risco 60% maior de apresentar infertilidade quando comparadas àquelas que não bebem. Não houve distinção, nesses estudos, entre o tipo de bebida, podendo ser vinho, cerveja e coquetéis.

Cafeína

A queda da fertilidade feminina está associada à alta dose de cafeína (> 500 mg/dia, equivalente a 5 xícaras por dia). Durante a gravidez, consumir mais de 300 mg/dia de cafeína aumenta o risco de aborto. O consumo moderado (1 a 2 xícaras por dia) não demonstra efeitos adversos na fertilidade ou na gravidez.

Anabolizantes

A uso de anabolizantes androgênicos pode comprometer de forma importante a fertilidade feminina, principalmente por interferir no eixo hipotálamo-hipófise-ovário. Essas substâncias podem reduzir a liberação de GnRH, LH e FSH, prejudicando o crescimento folicular e a ovulação. Como consequência, podem ocorrer irregularidade menstrual, amenorreia, anovulação e dificuldade para engravidar. O excesso de androgênios também pode causar acne, aumento de pelos, queda de cabelo, alteração da composição corporal e, em exposições mais intensas, sinais de virilização, alguns potencialmente irreversíveis, como engrossamento da voz e aumento do clitóris. Em muitas mulheres, a função ovariana tende a se recuperar após a suspensão, mas o tempo para normalização dos ciclos e da ovulação é variável, podendo levar meses. Uso prolongado, doses elevadas e associação de diferentes substâncias aumentam a imprevisibilidade da recuperação. Além disso, a exposição durante uma eventual gestação deve ser evitada, especialmente pelo risco de efeitos androgênicos sobre o desenvolvimento fetal. Portanto, mulheres que desejam engravidar devem interromper o uso de anabolizantes e avaliar a recuperação do ciclo menstrual, da ovulação e do eixo hormonal antes de tentar a concepção.

EMBRIÕES

Alterações cromossômicas

Um problema comum são as eventuais alterações cromossômicas dos embriões que impedem a implantação, principalmente em mulheres com mais de 40 anos, mesmo quando eles apresentam um aspecto próximo à perfeição no dia da transferência. Isto não significa que este será um problema repetitivo em todos os tratamentos, mas esta possibilidade deve ser considerada para se compreender que pode ter havido uma seleção natural do organismo materno que impediu a implantação do embrião não saudável. Por esta razão, a Equipe IPGO recomenda que o casal realize o exame cariótipo.

Exame Cariótipo

Esse exame identifica as anormalidades cromossômicas “dormentes” no homem e na mulher, ou seja, as características recessivas que, ao serem transmitidas ao embrião, poderão tornar-se evidentes e causar doenças que impossibilitem o desenvolvimento do bebê. O cariótipo é um exame de sangue simples e deve ser feito tanto pela mulher quanto pelo homem. É importante que haja atenção para as alterações estruturais dos cromossomos, como translocações, inversões e outros que estão descritos no e-book sobre biópsia embrionária.

Biopsia de Blastocisto (Trofectoderma)

A biópsia embrionária é um procedimento de retirada de células do embrião (trofectoderma), que vão originar as estruturas da placenta para análise genética ou cromossômica. É muito importante que a biópsia seja realizada de maneira correta para que não comprometa o desenvolvimento do embrião no futuro.

PGT-A (Preimplantation Genetic Testing - Aneuplody ou Teste Genético Pré-implantacional para aneuploidias)

Esse exame é realizado no embrião antes da implantação no útero da mãe, com o objetivo de diagnosticar a existência de alguma doença cromossômica. Essa avaliação estuda os 24 cromossomos do corpo humano (22 pares de cromossomos autossomos denominados com números de 1 a 22 e, mais dois sexuais X e Y). Estas técnicas são capazes de identificar todas as anomalias cromossômicas chamadas aneuploidias, que são alterações de perdas ou ganhos no número de cromossomos, causados por erros na divisão celular. Os embriões gerados com cromossomos a mais ou a menos não conseguem se desenvolver normalmente, e são a principal causa de falhas reprodutivas. Entre as aneuploidias mais conhecidas estão as Síndromes de Down, Patau, Edwards, Klinenfeter e Turner. As técnicas detectam alterações envolvendo todos os 24 cromossomos e são realizadas em uma fase adiantada de evolução embrionária, o blastocisto, geralmente no 5º dia após a fecundação (120 horas), o que permite avaliar um número maior de células (6 a 10) e, consequentemente, obter um resultado mais preciso. A retirada das células embrionárias ocorre após a realização de uma pequena abertura na região externa do blastocisto, chamada de trofectoderma (que dará origem à placenta). Algumas células que se exteriorizam por esta abertura são delicadamente aspiradas e encaminhadas ao laboratório de genética. Os embriões saudáveis são transferidos para o útero. Essa avaliação pode aumentar a chance de sucesso do tratamento. Para facilitar o entendimento, padronizou-se nomear o exame PGT-A (Teste Genético Pré-implantacional).

Falso positivo e falso negativo: apesar de seus benefícios, este exame pode apresentar resultados “falso positivo”, ou seja, indicar que o embrião é alterado, quando na verdade é normal, o que levaria ao descarte de um embrião saudável. Esta possibilidade de “falso positivo” ou “falso negativo” é possível e previsível neste tipo de exame. Em outras palavras, o exame PGS pode levar a um tratamento MAIS EFICIENTE por minimizar as possibilidades de anomalias no bebê e aumentar a probabilidade de resultados positivos na FIV, pois a maioria dos embriões com anomalias não chega a implantar ou termina em aborto no início da gestação, uma vez que é esperado que parte dos embriões formados na FIV sejam anormais, (NÃO SAUDÁVEIS), sendo uma importante causa de falha de FIV. Por outro lado, um ensaio clínico realizado por Scott et al, demonstrou que a possibilidade de “falsos positivos” (embriões saudáveis diagnosticados como anormais e serem descartados) pode ocorrer em até 4% dos casos (alguns consideram que este número pode chegar até a 20% – Paulson, R-2019 Best of ESHRE and ASRM) e tornar o tratamento MENOS EFICAZ. Se houver falso positivo, podemos estar descartando a única chance de a paciente engravidar. O diagnóstico de mosaico (presença de dois ou mais tipos de linhagem celular com diferentes cromossomos no mesmo embrião) pode também causar alguma insegurança na decisão final.

O PGT-A pode ser comparado a um “castelo de areia” porque, apesar de oferecer informações importantes sobre o embrião, seus resultados não são absolutos. A análise é feita a partir de uma pequena amostra celular e pode não refletir integralmente a constituição genética de todo o embrião. O mosaicismo é um dos principais exemplos dessa limitação, pois diferentes células de um mesmo embrião podem apresentar resultados distintos. Assim, embriões classificados como alterados podem, em algumas situações, apresentar potencial de implantação e até resultar no nascimento de crianças saudáveis. Da mesma forma, a interpretação pode variar de acordo com a tecnologia utilizada, o laboratório e os critérios adotados. O “outro lado” do PGT-A está justamente no risco de transformar uma ferramenta de seleção em uma decisão definitiva sobre o destino de um embrião. Por isso, resultados anormais, principalmente mosaicos ou alterações segmentares, devem ser analisados com prudência antes que se considere o descarte embrionário. O exame é valioso, mas não deve ser tratado como uma verdade biológica absoluta. A solidez da decisão depende sempre da interpretação clínica, genética e individualizada de cada caso.

Time Lapse (Embrioscope®)

A reprodução assistida está avançando muito, especialmente no campo tecnológico, já que as clínicas não param de incorporar novos elementos a seus laboratórios para alcançar o objetivo final perseguido: UM BEBÊ SAUDÁVEL EM CASA. Um dos avanços mais marcantes nos últimos anos a este respeito, são as incubadoras com tecnologia Time Lapse, que incorpora uma câmera que permite ver a evolução dos embriões que estão dentro do momento da fertilização, sem ter que removê-los da incubadora para o check-up. O Time Lapse (Embryoscope® Plus) permite fazer vídeos do desenvolvimento dos embriões e melhorar seu acompanhamento da fertilização até a transferência para o útero da mulher. Isto tem um efeito muito positivo na escolha do melhor blastocisto. Os pacientes poderão até receber um vídeo sobre o desenvolvimento de seus embriões. As vantagens dessas incubadoras sobre as convencionais são notáveis, já que seu sofisticado sistema de captura de imagens permite captar mudanças no desenvolvimento embrionário as quais, com as incubadoras convencionais, podem passar despercebidas. A incubadora Time Lapse possui vários compartimentos separados fisicamente onde os embriões são introduzidos, cada um com uma câmera que captura imagens deles a cada 10 minutos. A incubadora possui um software que converte todas essas imagens em um vídeo, através do qual os pacientes podem ver os primeiros dias de desenvolvimento de seus embriões concentrados em poucos minutos. Graças a este sistema, os embriologistas podem ter informações sobre os embriões que estão em cultivo no laboratório, o que lhes permite melhor seleção daqueles com maiores possibilidades de implantação.

Desta forma, a cultura até o estágio de blastocisto dos embriões ocorre sob condições estáveis de temperatura e umidade, CO2 e baixa concentração de oxigênio, como aconteceria em condições normais no corpo de uma mulher.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

A inteligência artificial (IA) vem ocupando espaço crescente na reprodução assistida ao permitir a análise de grandes volumes de dados, imagens e padrões que podem auxiliar médicos e embriologistas em decisões clínicas e laboratoriais. Seu objetivo não é substituir o profissional, mas tornar as avaliações mais objetivas, consistentes e individualizadas.

Uma das principais aplicações está na análise embrionária. Sistemas de Time Lapse, como o EmbryoScope, permitem acompanhar continuamente o desenvolvimento dos embriões sem retirá-los da incubadora, registrando informações sobre divisões celulares, morfologia e velocidade de desenvolvimento. Quando esses dados são associados a algoritmos de IA, é possível acrescentar novos critérios à seleção dos embriões com maior potencial de implantação.

A inteligência artificial também pode ser utilizada na avaliação dos óvulos. Plataformas como MAGENTA e VIOLET, da Future Fertility, analisam imagens dos oócitos por meio de deep learning. O MAGENTA é voltado aos óvulos obtidos em ciclos de fertilização in vitro, enquanto o VIOLET auxilia mulheres que congelam óvulos para preservação da fertilidade, fornecendo estimativas individualizadas sobre seu potencial reprodutivo futuro.

Outra tecnologia é a MAIA, Morphological Artificial Intelligence Assistance, que utiliza imagens provenientes do acompanhamento embrionário para identificar características associadas a maior potencial gestacional. Sistemas como KIDScore e ERICA seguem princípios semelhantes, buscando reduzir a subjetividade da avaliação morfológica tradicional e funcionar como uma segunda camada de análise para o embriologista.

Na fertilidade masculina, algoritmos também vêm sendo desenvolvidos para identificar e selecionar espermatozoides. Tecnologias como OMA Sperm Insight e SpermSearch podem auxiliar na análise espermática e até na procura de espermatozoides em amostras testiculares de homens com azoospermia. Paralelamente, sistemas robotizados começam a participar de etapas da ICSI, incluindo identificação, captura e injeção dos espermatozoides.

Apesar do enorme potencial, é importante destacar que maior capacidade de análise ou previsão não significa necessariamente aumento comprovado das taxas de gravidez ou de nascidos vivos. Muitas dessas tecnologias ainda necessitam de estudos clínicos mais robustos que demonstrem benefícios consistentes nos resultados finais dos tratamentos.

A expansão da IA também traz questões éticas. Entre elas estão a dificuldade de compreender como alguns algoritmos chegam às suas conclusões, o chamado efeito de “caixa-preta”, além de consentimento informado, privacidade dos dados, possíveis vieses, custos adicionais e desigualdade de acesso. Também permanece a discussão sobre a responsabilidade diante de eventuais erros de interpretação ou decisão.

A tendência é que a inteligência artificial esteja cada vez mais presente em diferentes etapas da reprodução assistida, desde a avaliação dos gametas até a seleção embrionária e a estimativa individualizada de prognóstico. Tecnologias como Time Lapse, MAGENTA, VIOLET e MAIA, utilizadas no IPGO, exemplificam essa evolução. Entretanto, sua incorporação deve ser criteriosa, baseada em evidências científicas e sempre associada à experiência de médicos e embriologistas. A IA deve permanecer como uma ferramenta de apoio à decisão, combinando avanço tecnológico com segurança, transparência, ética e humanização do tratamento.

Teste de compatibilidade genética

O Teste de Compatibilidade Genética, também chamado de teste de portadores, é um exame realizado para identificar se duas pessoas que pretendem ter filhos carregam alterações genéticas capazes de causar determinadas doenças hereditárias nos descendentes.

Muitas pessoas saudáveis são portadoras de variantes genéticas relacionadas a doenças recessivas sem saber. Isso acontece porque possuem apenas uma cópia alterada de determinado gene e outra cópia normal. Nessa situação, a doença não se manifesta, mas a alteração genética pode ser transmitida aos filhos.

O primeiro passo da avaliação é a realização de um painel genético de portadores. Por meio de uma amostra de sangue ou saliva, é extraído o DNA do indivíduo, que posteriormente é analisado por técnicas de sequenciamento genético. O painel pesquisa simultaneamente genes associados a diversas doenças hereditárias, principalmente doenças autossômicas recessivas e algumas condições ligadas ao cromossomo X.

Cada pessoa realiza inicialmente sua própria análise genética. O resultado informa quais alterações patogênicas ou provavelmente patogênicas foram identificadas e para quais doenças aquela pessoa é considerada portadora.

O teste de compatibilidade genética propriamente dito é realizado quando os resultados dos dois membros do casal são comparados. O objetivo é verificar se ambos apresentam alterações relacionadas ao mesmo gene e à mesma doença recessiva.

Se apenas um dos parceiros for portador de uma determinada doença autossômica recessiva, normalmente não se espera que o filho desenvolva aquela doença, embora possa herdar a alteração genética e também se tornar portador.

Quando os dois parceiros são portadores de alterações relacionadas ao mesmo gene recessivo, cada gestação apresenta, de maneira geral, 25% de probabilidade de gerar uma criança afetada, 50% de probabilidade de gerar uma criança portadora e 25% de probabilidade de gerar uma criança que não herdou nenhuma das duas variantes.

Esse resultado não significa que o casal não possa ter filhos. Significa que existe um risco genético conhecido que deve ser discutido em aconselhamento genético, permitindo que o casal conheça previamente suas alternativas reprodutivas.

Entre essas possibilidades está a fertilização in vitro associada ao PGT-M, teste genético pré-implantacional destinado à pesquisa de uma doença monogênica específica. Nesse caso, os embriões formados pela fertilização in vitro podem ser analisados antes da transferência para o útero, permitindo identificar aqueles que não apresentam a doença genética pesquisada.

O teste de compatibilidade genética pode ser realizado por qualquer casal que deseje conhecer melhor seu risco reprodutivo, mas algumas situações tornam sua indicação especialmente importante.

Uma das principais é a existência de histórico pessoal ou familiar de doenças genéticas, principalmente quando já existe um diagnóstico conhecido na família. Também deve ser considerado quando existe consanguinidade, pois pessoas que pertencem à mesma família apresentam maior probabilidade de compartilhar determinadas variantes genéticas recessivas.

O exame também pode ter papel importante no planejamento de tratamentos de reprodução assistida, principalmente quando há utilização de óvulos ou espermatozoides de doadores.

Na ovodoação, por exemplo, a doadora pode realizar previamente o painel de portadores. Caso seja identificada alguma variante genética recessiva relevante, o homem que fornecerá os espermatozoides poderá ser pesquisado especificamente para aquele gene ou por um painel equivalente. O objetivo é evitar que doadora e futuro pai sejam portadores de alterações relacionadas à mesma doença genética.

O mesmo raciocínio pode ser utilizado quando há utilização de sêmen de doador: o perfil genético do doador pode ser comparado ao da mulher que fornecerá os óvulos.

O exame também pode ser considerado em casais que apresentam antecedentes reprodutivos inexplicados, sempre dentro de uma investigação individualizada, embora ele não substitua a avaliação das demais causas de infertilidade, falhas de implantação ou abortamentos.

É importante compreender que um resultado considerado compatível não significa risco genético zero. Nenhum painel é capaz de pesquisar todas as doenças hereditárias existentes, e determinados tipos de alterações genéticas podem não ser identificados pela metodologia utilizada. O exame reduz o risco das condições pesquisadas, mas não elimina completamente a possibilidade de uma doença genética.

Da mesma maneira, o teste de compatibilidade genética não deve ser confundido com o cariótipo, que avalia alterações no número ou na estrutura dos cromossomos, nem com o PGT-A, utilizado principalmente para avaliar alterações cromossômicas numéricas nos embriões.

Portanto, o teste de compatibilidade genética deve ser entendido como uma ferramenta de medicina preventiva e planejamento reprodutivo. Ao identificar previamente casais ou combinações entre pacientes e doadores com risco aumentado para determinadas doenças hereditárias, é possível oferecer aconselhamento genético e definir estratégias capazes de reduzir significativamente a possibilidade de transmissão dessas doenças aos futuros filhos.

A FERTILIDADE DO HOMEM

O fator masculino também pode ser responsável pela má qualidade embrionária. Além da repetição do espermograma, que deve ser realizado em laboratórios de excelência, outros exames poderão ser realizados ou refeitos.

Fragmentação do DNA dos Espermatozoides

Exame que tem sido indicado recentemente, pois as alterações detectadas reduzem a capacidade reprodutiva dos homens. A fragmentação aumentada do DNA espermático pode estar relacionada à pior qualidade embrionária, menores taxas de implantação e maior risco de abortamento. Considera-se, de maneira geral, que valores do Índice de Fragmentação do DNA espermático iguais ou superiores a 30% merecem atenção, embora os limites possam variar conforme o método utilizado. A causa mais frequente dessa alteração é o estresse oxidativo, que pode estar associado ao cigarro, álcool, obesidade, varicocele, processos inflamatórios, calor excessivo, idade e outros hábitos de vida inadequados.

Além da orientação ao paciente para manter um estilo de vida saudável, antioxidantes, como as vitaminas C e E, podem ser utilizados em situações selecionadas. Por isso, antes de iniciar um tratamento de infertilidade, é importante estimular uma rotina fundamentada em bons hábitos.

Nos casos de fragmentação elevada, algumas técnicas laboratoriais podem auxiliar na seleção dos melhores espermatozoides. O PICSI seleciona espermatozoides maduros capazes de se ligar ao ácido hialurônico, característica que pode estar associada a melhor qualidade espermática. Outra possibilidade é o ZyMot, um dispositivo de seleção espermática por microfluídica que permite que os espermatozoides com melhor motilidade atravessem microcanais que simulam parte do processo natural de seleção existente no trato reprodutivo feminino. O método dispensa etapas prolongadas de centrifugação e tende a selecionar uma população com maior motilidade, menor estresse oxidativo e menor fragmentação do DNA. Pode ser particularmente interessante nos casos de fragmentação espermática elevada, falhas anteriores de fertilização ou desenvolvimento embrionário e perdas gestacionais recorrentes. Entretanto, apesar dos resultados laboratoriais promissores, os benefícios definitivos sobre as taxas de gravidez e de nascidos vivos ainda estão sendo estudados.

IMSI (Intracytoplasmic Morfologically Select Sperm Injection), ou “Super ICSI”, ou “ICSI de alta magnificação” ou “ICSI magnificado”:

Considerado um dos mais recentes avanços nas técnicas de Fertilização Assistida, é uma nova versão do já conhecido ICSI (Injeção Intracitoplasmática do Espermatozoide). Esse exame é recomendado quando o homem apresenta espermatozoides com alterações importantes na motilidade, morfologia, altas taxas de fragmentação do DNA e presença de vacúolos, além de abortos repetidos. O conjunto dessas alterações é denominado pela sigla em inglês MSOME (Motile Sperm Organellar Morphology Examination). O IMSI utiliza sistema ótico chamado “contraste de fase interferencial”, com objetiva de maior poder de ampliação eletrônica das imagens, possibilitando observar os espermatozoides em mais detalhes, detectar seus defeitos e selecionar os melhores, pois são aumentados em até 12 mil vezes. O ICSI convencional, para termos comparativos, aumenta só 400 vezes. Existem perspectivas de que, no futuro, um microscópio potente poderá separar os espermatozoides saudáveis daqueles comprometidos para que só esses sejam introduzidos no óvulo, mas isso é ainda uma promessa distante da realidade atual.

PROTOCOLOS PERSONALIZADOS DE INDUÇÃO DE OVULAÇÃO E OUTRAS DROGAS

Os protocolos de indução de ovulação podem ter influência direta no número e qualidade dos óvulos e embriões e, por isso, mudanças neste aspecto podem ser bem-vindas. Não há um esquema único de remédios que seja ideal para todas as mulheres. Existem muitos medicamentos de ótima qualidade que podem ser eficientes para algumas pacientes, mas não para outras. Nem sempre é possível acertar na primeira tentativa. Portanto, após análise criteriosa do ciclo anterior, pode-se recomendar uma nova estratégia.

Individualizar a estimulação ovariana é fundamental!

Para se definir o melhor protocolo para a estimulação ovariana é importante compreender o significado de “Individualizar”. Individualizar significa ajustar algo para que melhor se adeque aos requisitos de alguém; personalizar. Assim, o protocolo de estimulação ovariana deve ser individualizado para cada paciente de acordo com o seu histórico e a situação em que ela se encontra. Para que qualquer organismo atinja um estado ótimo de maturação (amadurecimento), deve primeiro passar por pleno crescimento e desenvolvimento. Uma boa analogia é o fruto colhido de uma árvore antes de ter se desenvolvido totalmente. Ele ainda pode amadurecer na prateleira e pode até parecer tão atraente como aquele que teve um desenvolvimento adequado. Entretanto, não terá a mesma qualidade. Os mesmos princípios se aplicam para o desenvolvimento e maturação dos óvulos da mulher. Um desenvolvimento adequado, bem como o sincronismo preciso no início de maturação dos óvulos com os hormônios adequados são essenciais para se conseguir um óvulo ideal, uma boa fertilização, um ótimo embrião e, finalmente, a gravidez. Na verdade, nos casos em que a maturação dos óvulos não é devidamente sincronizada, há um aumento do risco de aneuploidia (anormalidades cromossômicas estruturais e numéricas), levando ao comprometimento do desempenho reprodutivo. O potencial dos óvulos de uma mulher sofrerem maturação ordenada, fertilização bem sucedida e posterior progressão para “embriões de boa qualidade”, capazes de produzir um bebê saudável, é, em grande parte, determinado geneticamente. No entanto, a expressão do potencial reprodutivo é influenciada por numerosas variáveis extrínsecas no ovário e endométrio durante a fase pré-ovulatória do ciclo, principalmente nos casos de mulheres más respondedoras e as mais maduras (mais velhas), cujos ovários acompanham o envelhecimento, independentemente da aparência jovial de cada uma. Nesses casos, os protocolos de estimulação precisam ser personalizados para atender às necessidades individuais. A utilização de protocolos especiais como Duostim, utilização do hormônio de crescimento (GH), G-CSF ou outras estratégias para baixas respondedoras, deve ser avaliado individualmente. Tudo o que podemos fazer é evitar comprometer o ambiente de ovário durante a estimulação ovariana e, assim, evitar mais prejuízo à qualidade do óvulo.

Duostim

UM PROTOCOLO PARA MULHERES COM POUCOS ÓVULOS

O DuoStim, ou Double Stimulation (Dupla Estimulação), consiste em um protocolo de estimulação ovariana em que são realizadas 2 coletas de óvulos no mesmo ciclo menstrual, aumentando, assim, o número de óvulos coletados. O DuoStim pode ser útil em pacientes más respondedoras, aumentando o número de óvulos coletados num mesmo ciclo e, assim, aumentando também a chance de gravidez.

Em um ciclo de fertilização in vitro (FIV) normalmente  é  utilizada uma estimulação ovariana para se obter um desenvolvimento folicular múltiplo e, assim, conseguir uma quantidade mínima de óvulos que formem pelo menos um embrião de boa qualidade, de preferência blastocisto (embrião com 5 dias de desenvolvimento). Considerando que, mesmo com grande avanço da técnica, nem todos os óvulos são fertilizados e entre os embriões formados, nem todos serão de boa qualidade, recomenda-se a obtenção de pelo menos 6-8 oócitos maduros. Entretanto, uma parte das mulheres submetidas a um ciclo de FIV, mesmo com altas doses de medicações, recrutam um número pequeno de folículos, apresentando o que chamamos de uma má resposta, ou seja, quando são coletados 3 óvulos  ou menos.

Uma opção é fazer mais de uma coleta para conseguir acumular um maior número de óvulos. Isso pode ser demorado, pois algumas poderão necessitar de várias coletas.

Uma alternativa é o protocolo DuoStim. Desenvolvido pelo Prof. Kuange e por colaboradores da Shanghai Jiao Tong University, este protocolo propõe duas coletas num mesmo ciclo, sendo a segunda indução na fase lútea da primeira. Todos os embriões são congelados e transferidos em um ciclo natural subsequente ou após preparo endometrial com medicações.

Após a demonstração de resultados com o protocolo chinês, novos autores propuseram novos esquemas de DuoStim. A medicação para estimular os ovários pode ser variável de acordo com a experiência de cada profissional. Inicia-se a estimulação ovariana da forma usual, utiliza-se o bloqueio da ovulação com antagonista do GnRH e o trigger com agonista do GnRH. Depois de 5 dias da coleta de óvulos, já se inicia um novo protocolo de estimulação. Um estudo utilizando este protocolo observou maior número de óvulos maduros e embriões na segunda coleta e, em um outro, não houve diferença no número de óvulos, óvulos maduros, embriões ou taxa de embrião euploides (geneticamente normais), comparando as duas coletas. Isso mostra que não é necessário esperar o próximo ciclo para estimular novamente os ovários e fazendo este protocolo, pode-se aumentar o número de óvulos obtidos.

Fundamentação conceitual

O racional do critério baseia-se em três pilares:

  • A existência de múltiplas ondas foliculares no mesmo ciclo.
  • A possibilidade de recrutamento adicional na fase lútea.
  • A otimização do aproveitamento folicular em pacientes de baixa reserva ou resposta subótima.

Quando há discrepância significativa entre folículos visualizados e óvulos recuperados, sugere-se possível assincronia de maturação ou falha parcial de resposta ao estímulo inicial. Nesses casos, a realização de um segundo estímulo no mesmo ciclo pode permitir captação adicional de oócitos potencialmente viáveis.

Critério formal de indicação de duostim

Proposto por Dr. Arnaldo Cambiaghi

A decisão pela realização de DuoStim deve ser baseada não apenas na reserva ovariana, mas também na análise comparativa entre o número de folículos visualizados no dia da punção e o número efetivamente recuperado.

 

A discrepância entre óvulos aspirados e óvulos remanescentes pode indicar falha de recrutamento funcional na segunda onda folicular do mes- mo ciclo. Esse conceito fundamenta o critério abaixo.

 

Critérios que eu recomendo para indicação de DuoStim

 

Grau de indicação para DuoStim

Relação entre o número de óvulos coletados e remanescentes

 

Interpretação clínica

✕ Indicação inadequada

Óvulos coletados > (maior) óvulos remanescentes

Baixa eficiência de

captação na segunda fase

✓ ✓ Indicação moderada

Óvulos coletados ≈ (igual)

óvulos remanescentes

Eficiência intermediária na captação de segunda fase

✓ ✓ ✓ ✓ ✓

Forte indicação

Óvulos coletados <(menor) óvulos remanescentes

Boa eficiência de

captação na segunda fase

Posicionamento autoral

Este critério reflete uma interpretação clínica baseada na experiência prática acumulada em protocolos de estimulação ovariana e na análise individualizada do desempenho folicular intraciclo.

Trata-se de uma proposta de sistematização decisória que integra observação clínica, fisiologia ovariana contemporânea e estratégia de maximização de rendimento oocitário.

 

IMPORTANTE:

Deve-se ressaltar que esta alternativa pode apresentar uma res- posta melhor em 80% dos casos e NÃO na totalidade. Por isso, deve ser indicada com ponderação. Além disso, vale esclarecer que a segunda fase do DuoStim costuma ser mais longa que a primeira e, por este motivo, necessita de mais dias de medicação, consequentemente, gerando um aumento no custo do tratamento. E, mesmo assim, pode ter um resultado inferior à primeira fase.

Estimulação na fase lútea

A estimulação ovariana na fase lútea é uma estratégia alternativa que permite iniciar ou reiniciar a estimulação após a ovulação, aproveitando as diferentes ondas de crescimento folicular que ocorrem durante o ciclo menstrual. Embora não seja o protocolo habitual, pode ser especialmente útil quando há necessidade de otimizar o tempo ou aumentar o número de óvulos obtidos. Suas principais indicações incluem pacientes que precisam preservar a fertilidade com urgência, como antes de tratamentos oncológicos, mulheres que apresentaram resposta insatisfatória na estimulação realizada na fase folicular e situações em que se observa uma nova população de folículos na fase lútea. O protocolo utiliza gonadotrofinas, com acompanhamento por ultrassonografias e, quando necessário, dosagens hormonais. Quando os folículos atingem o desenvolvimento adequado, realiza-se o trigger de maturação e a coleta dos óvulos cerca de 34 a 36 horas depois. Como o ambiente hormonal da fase lútea não é ideal para a implantação, geralmente os embriões são congelados para transferência posterior. Essa estratégia também pode integrar o DuoStim, que realiza duas estimulações no mesmo ciclo, sendo particularmente interessante para mulheres com baixa reserva ovariana ou quando existe necessidade de acumular óvulos ou embriões em curto período.

Hormônio de crescimento (GH):

O hormônio GH (Growth Hormone – Hormônio do Crescimento) é sintetizado pela hipófise e, como o próprio significado sugere, é responsável pelo controle do crescimento do ser humano. Devido à sua função, passou a ser empregado em técnicas de reprodução assistida, principalmente em casos de pacientes com baixa reserva ovariana ou más-respondedoras. O GH age no organismo todo, promovendo o crescimento e o desenvolvimento de todas as células do corpo humano. Estudos realizados constantemente ao longo dos últimos anos, têm apontado o hormônio GH como um grande influenciador da função ovariana.

 Vários estudos mostram taxas de sucesso de FIV significativamente melhores nas pacientes que adicionaram este hormônio ao tratamento de estimulação aumentando significativamente as chances de uma gravidez e o nascimento de um bebê.

O mecanismo pelo qual o hormônio de crescimento (GH) pode melhoraras taxas de sucesso da fertilização in vitro não está claro. No entanto, com base em estudos em animais e humanos, tem sido demonstrado que este hormônio está envolvido na produção de hormônios esteroides no ovário e no desenvolvimento de folículos ovarianos, aumento significativo na expressão dos receptores dos hormônios FSH e LH nas células da granulosa e aumento significativo da função mitocondrial. Estudos têm demonstrado que, em ratinhos, quando está faltando o receptor e a proteína de ligação do hormônio de crescimento, há uma redução significativa no desenvolvimento de folículos ovarianos.

Outros estudos têm demonstrado taxas melhores de gravidez e nascidos vivos com FIV após a suplementação do hormônio do crescimento em pacientes más-respondedoras. No entanto, é importante deixar claro que essa suplementação não é um tratamento mágico, pois muitas mulheres que usam este hormônio ainda terão tentativas infrutíferas de FIV.

Como o GH auxilia em tratamentos de Reprodução Assistida?

O hormônio GH atua por meio da estimulação da somatomedina C, ou IGF-1 (fator de crescimento de insulina I). É encontrado em vários tecidos e também nos folículos ovarianos, porém, de acordo com estudos, a quantidade desse hormônio é menor em mulheres que apresentam baixa reserva ovariana. Logo, conclui-se que a redução do IGF-1 altera as funções celulares de mulheres com idade avançada ou acometidas pela Insuficiência Ovariana Prematura.

Partindo desse princípio, pesquisas recentes demonstraram que mulheres com baixa contagem de óvulos que tiveram o hormônio GH adicionado ao protocolo de estimulação ovariana tiveram uma melhor resposta folicular. O uso do hormônio GH pode, ainda, aprimorar a qualidade dos óvulos, proporcionando embriões de melhor qualidade e, consequentemente, aumentando as taxas de gravidez. Entretanto, interfere pouco na quantidade de óvulos gerados na indução da ovulação.

Existem duas razões para esse resultado:

  • A administração do hormônio GH durante a estimulação ovariana gera uma melhor resposta das gonadotrofinas (medicações, normalmente injetáveis, utilizadas durante a indução ovariana), por meio da regulação dos receptores de FSH (hormônio folículo estimulante).
  • O hormônio do crescimento no óvulo reforça a atividade mitocondrial.

 Assim, há comprovação de que os óvulos de mulheres acometidas por baixa reserva ovariana são de melhor qualidade e com mitocôndrias mais funcionais quando recebem hormônio GH. Isso tem incentivado muitos países a já adotarem o uso do hormônio do crescimento em tratamentos de reprodução assistida para mulheres na mesma situação.

Protocolos de aplicação do GH

  • Esquema curto – Esquema tradicional de aplicação do GH

Os protocolos são variáveis. As doses mais eficazes do hormônio do crescimento e a duração ainda não foram esclarecidas. Até a atualidade, os estudos publicados utilizam doses entre 4UI – 24UI, administradas diariamente ou a cada dois dias, utilizadas durante os primeiros dias de estimulação ou para toda a fase de estimulação. Alguns ensaios clínicos têm demonstrado a sua efetividade quando combinados a protocolos tradicionais de indução de ovulação em mulheres com reserva ovariana diminuída, pois melhoram a função ovariana e aumentam as taxas de gravidez, mas não aumentam a produção de óvulos.

PROTOCOLO – Esquema longo

Um novo protocolo pode oferecer melhores resultados: o ESQUEMA LONGO DO GH. O hormônio GH é iniciado em uma fase precoce, antes da estimulação ovariana e estimulando precocemente as mitocôndrias dos óvulos.

Esquema longo

Um novo protocolo pode oferecer melhores resultados: o ESQUEMA LONGO DO GH. O hormônio GH é iniciado em uma fase precoce, antes da estimulação ovariana, e estimula precocemente as mitocôndrias dos óvulos.

Por que o esquema longo?

Ovogênese e foliculogênese: é o processo no qual ocorre a formação dos óvulos. Esse processo tem início antes do nascimento da mulher, ou seja, durante o seu desenvolvimento embrionário, ainda dentro do útero, mais ou menos no terceiro mês de sua vida intrauterina, e continuam se desenvolvendo na fase infantil, na puberdade e na fase adulta até a menopausa. Durante toda a vida da mulher, alguns óvulos evoluem para a maturidade e se mostram adequados para serem fecundados e gerar bebês saudáveis, e muitos outros não. Estes se perdem, não evoluem e se tornam atrésicos (degenerados). Portanto, a formação final do óvulo para ser fertilizado passa por vários estágios que se iniciaram na fase inicial em que a mulher está ainda no útero de sua mãe (fase embrionária): folículo primordial, folículo primário, folículo secundário; e outra final, que se inicia 85 dias antes da ovulação: folículo pré-antral, folículo antral precoce e folículo antral. Após passar por esses estágios de desenvolvimento, os folículos passam por uma fase final de recrutamento que se inicia logo após a menstruação, na qual 15-20 folículos são selecionados, entram na fase de crescimento, mas somente um é selecionado para a maturação final. Nos ciclos induzidos, como é o caso dos PROGRAMAS DE FERTILIZAÇÃO, mais óvulos são selecionados. Portanto, devemos correlacionar as fases da foliculogênese e até o folículo pré-ovulatório da seguinte forma: crescimento folicular – 65 dias, recrutamento e seleção – 10 dias e maturação final – 10 dias.

O protocolo longo

Este protocolo baseia-se na ideia de que a maioria dos estudos até hoje publicados mostra que o PROTOCOLO CURTO, que aplica o GH exclusivamente no período concomitante à estimulação ovariana, não é aplicado no período mais importante, quando os folículos ainda são pequenos e são mais receptivos aos efeitos proliferativos do IGF-1 (ovogênese e foliculogênese). Neste novo protocolo, os pesquisadores colocam a hipótese de que, ao iniciar o GH, pelo menos 6 semanas antes do início da fertilização, a produção de óvulos poderia aumentar e melhorar ainda mais as chances de gravidez. O objetivo deste protocolo é melhorar a resposta ovariana à estimulação das gonadotrofinas para FIV pela adição do hormônio de crescimento humano durante o estágio inicial do desenvolvimento do folículo. Esta hipótese baseia-se em observações prévias de efeitos do hormônio do crescimento em folículos pequenos e do fato de que estudos anteriores utilizaram o GH somente durante a própria indução da ovulação. Portanto, a aplicação do GH pode ser mais efetiva se for administrada pelo menos 6-8 semanas antes do início do ciclo de FIV, visando os pequenos folículos em crescimento.

A aplicação do GH inicia-se 40 dias antes da data provável da captação dos óvulos. Isto é, logo após o início do ciclo menstrual anterior ao ciclo que será induzido.

[DESTAQUE] IMPORTANTE: Por se tratar de um tratamento prolongado com medicação injetável, recomendamos que seja indicado sob a luz de critérios rigorosos.

Os principais protocolos para estimulação ovariana com hormônio de crescimento

Um estudo científico chinês investigou como o hormônio de crescimento (GH) pode melhorar os resultados da fertilização in vitro em mulheres com baixa reserva ovariana, um problema comum em mulheres que têm dificuldade para engravidar porque seus ovários não respondem bem aos medicamentos.

Comparação dos Protocolos Testados:

  • GH por 60 dias (2 meses antes).

Melhorou bastante o número de óvulos coletados. Aumentou a espessura do endométrio (camada do útero onde o embrião se implanta). Resultados muito bons, mas não melhores que 30 dias.

  • GH por 30 dias (1 mês antes)

Melhor opção, pois oferece excelentes resultados. Aumenta significativamente os óvulos recuperados. Aumenta os níveis de estradiol (hormônio importante). Mais prático e menos caro que 60 dias.

 

  • GH durante o ciclo (últimos 10-14 dias)

Funciona bem, mas um pouco menos eficaz que 30-60 dias. Ainda melhora o número de óvulos. Menos invasivo, pois começa junto com os medicamentos.

 

  • Sem GH (grupo controle)

Piores resultados em todas as medidas. Menos óvulos coletados. Menores concentrações de hormônios ovarianos.

Risco de complicações com o uso prolongado do GH:

Publicações demonstram que o risco do uso prolongado do GH só ocorre quando usado como anabolizante. Nestes casos, usam-se doses maiores por mais de 90 dias. Estas publicações mostram ainda que, em doses menores, como as recomendadas em reprodução, NÃO AUMENTA o risco de câncer e, pelo contrário, melhora o perfil lipídico e a osteoporose (as referências bibliográficas sobre este assunto estão no fim desta publicação).

Conclusão prática

O estudo mostrou que usar GH por 1 mês é o melhor custo-benefício, já que 2 meses não oferecem benefícios adicionais significativos. Todas as formas de uso de GH melhoraram os resultados comparadas a não usar nada, mas mais tempo não significa melhor resultado.

Mulheres com baixa reserva ovariana que desejam melhorar suas chances de gravidez podem se beneficiar de GH, especialmente com o protocolo de 30 dias antes do ciclo de fertilização.

ÚTERO-ENDOMÉTRIO

Normalmente a avaliação da cavidade uterina é feita antes dos programas de fertilização in vitro, mas caso ainda não tenha sido feita, esta investigação poderá ajudar a afastar alterações como pólipos, miomas ou aderências que podem impedir a implantação dos embriões.

Miomas

Os miomas submucosos são os mais importantes, pois podem interferir na anatomia da cavidade uterina e prejudicar implantação embrionária. Os miomas de maior volume, mesmo quando não deformam o interior do útero, podem, em algumas situações, prejudicam as chances de gestação.

Histeroscopia

O melhor exame para esta investigação é a videohisteroscopia (visibilização da cavidade uterina por um endoscópio) que além de diagnosticar as alterações citadas, pode identificar processos inflamatórios (endometrite) não reconhecidos em outros exames comuns. A biópsia do endométrio pode concluir esta hipótese e o tratamento com antibióticos resolverá o problema. Outras avaliações do endométrio poderão ser feitas como, por exemplo, a avaliação do perfil Imunohistoquímico, sinéquias uterinas, pólipos, septos e miomas submucosos.

A dificuldade na transferência dos embriões, muitas vezes, causa traumas no endométrio e atrapalha a implantação do embrião, principalmente quando este ato for acompanhado de dor. A videohisteroscopia com a dilatação do colo ou simplesmente a dilatação do colo uterino isolada beneficia a próxima tentativa que, preferencialmente, deverá ser realizada com sedação. A transferência embrionária sob a visão do ultrassom traz benefícios ainda maiores, pois permite ao médico observar o trajeto do cateter em direção a cavidade uterina, bem como mostrar ao casal a localização exata da colocação dos embriões.

Hidrossalpinge

A hidrossalpinge é uma alteração que pode afetar uma ou ambas as tubas uterinas. “Hidro” significa líquido, e “salpinge” se refere à tuba. Assim, hidrossalpinge é o acúmulo de líquido, geralmente inflamatório, no interior da tuba. Esse líquido pode refluir e chegar à cavidade do útero, prejudicando o ambiente uterino e dificultando a implantação do embrião. Por esse motivo, a hidrossalpinge pode reduzir as chances de sucesso da fertilização in vitro.

Em muitos casos, a tuba está bastante danificada, e sua recuperação é difícil. Para quem pretende fazer fertilização in vitro, tentar reconstruí-la pode não ser a opção mais adequada. Uma possibilidade é retirar cirurgicamente a tuba afetada, procedimento chamado salpingectomia. Se as duas tubas estiverem comprometidas, a retirada pode ser considerada de ambos os lados. Essa decisão depende da avaliação médica e das características de cada caso. Algumas pacientes, especialmente as mais jovens, sentem dificuldade em aceitar a retirada da tuba. Nessas situações, uma alternativa pode ser bloquear sua comunicação com o útero usando clipes ou outra técnica, com o objetivo de impedir que o líquido da hidrossalpinge chegue à cavidade uterina. Essa opção pode ser considerada em situações selecionadas, embora a escolha da técnica deva ser individualizada. O bloqueio preserva a tuba, mas não a recupera nem remove o líquido que já está dentro dela.

Também é importante conversar sobre os benefícios e as limitações de cada abordagem. Alguns tipos de câncer ginecológico podem começar nas tubas, e esse aspecto pode fazer parte da discussão sobre a cirurgia. A idade, o histórico familiar e as condições clínicas da paciente também devem ser considerados. O ponto essencial é evitar que o líquido da hidrossalpinge alcance o útero e prejudique a implantação embrionária.

O diagnóstico pode ser feito por exames como a histerossalpingografia (HSG), o ultrassom transvaginal, a ressonância magnética e a HyCoSY. A HSG utiliza contraste e radiografias para mostrar o interior do útero e das tubas e avaliar a passagem do contraste. A HyCoSY, também chamada histerosalpingo-sonografia com contraste, avalia as tubas por ultrassom após a introdução de contraste pelo útero. O ultrassom transvaginal também pode identificar a hidrossalpinge, enquanto a ressonância magnética pode ajudar a esclarecer casos selecionados. A escolha do exame depende da avaliação médica e das características de cada caso.

Sinéquias uterinas

As sinéquias uterinas são aderências formadas dentro da cavidade do útero, geralmente em consequência de um processo de cicatrização anormal do endométrio. Essas aderências podem unir parcial ou totalmente as paredes uterinas, reduzindo o espaço disponível na cavidade e interferindo na função normal do endométrio. Quando são extensas e associadas a alterações menstruais ou reprodutivas importantes, podem caracterizar a chamada síndrome de Asherman.

As causas mais frequentes estão relacionadas a procedimentos intrauterinos, principalmente curetagens após abortamento, parto ou retenção de restos placentários. Também podem surgir após cirurgias uterinas, retirada de miomas ou pólipos, infecções endometriais e, mais raramente, após outros processos inflamatórios.

Algumas mulheres não apresentam sintomas. Em outros casos, podem ocorrer redução importante do fluxo menstrual, ausência de menstruação, cólicas, dificuldade para engravidar, abortamentos recorrentes ou falhas de implantação embrionária. Na reprodução assistida, as sinéquias merecem atenção especial porque podem comprometer a adequada preparação do endométrio e dificultar a implantação do embrião.

O diagnóstico pode ser sugerido pela ultrassonografia, especialmente com avaliação da cavidade uterina, mas a histeroscopia é considerada o método mais preciso, pois permite visualizar diretamente as aderências e avaliar sua extensão. O tratamento também é realizado, na maioria das vezes, por histeroscopia, com liberação cuidadosa das sinéquias para reconstruir a cavidade uterina. Nos casos mais complexos, pode ser necessário acompanhamento posterior para reduzir o risco de novas aderências e verificar a recuperação adequada do endométrio.

Pólipos

Os pólipos uterinos ou endometriais são formações geralmente benignas que se desenvolvem a partir do endométrio, tecido que reveste internamente a cavidade uterina. Podem apresentar tamanhos variados, ser únicos ou múltiplos e permanecer presos à parede do útero por uma base larga ou por um pequeno pedículo.

Muitas mulheres não apresentam sintomas e descobrem o pólipo durante uma ultrassonografia de rotina ou na investigação da infertilidade. Quando há manifestações clínicas, as mais frequentes são sangramento uterino irregular, aumento do fluxo menstrual, pequenos sangramentos entre as menstruações ou após a menopausa.

Na reprodução assistida, os pólipos merecem atenção porque, dependendo do tamanho e da localização, podem interferir na receptividade endometrial e dificultar a implantação do embrião. Além da alteração física da cavidade uterina, alguns estudos sugerem que os pólipos podem estar associados a modificações locais do ambiente inflamatório e molecular do endométrio.

O diagnóstico pode ser suspeitado pela ultrassonografia transvaginal, principalmente quando realizada em fases adequadas do ciclo. A histerossonografia pode aumentar a precisão da avaliação, mas a histeroscopia é considerada o método mais preciso, pois permite visualizar diretamente o interior do útero.

Quando existe indicação de tratamento, a retirada do pólipo é geralmente realizada por histeroscopia, procedimento que permite sua remoção de maneira direcionada, preservando o restante da cavidade uterina. O material retirado deve ser encaminhado para análise anatomopatológica, especialmente em mulheres com fatores de risco para alterações endometriais.

Contrações uterinas excessivas e falha de implantação

O útero apresenta contrações fisiológicas ao longo do ciclo menstrual. Entretanto, quando essas contrações são excessivas ou desorganizadas no período da implantação, podem dificultar a permanência do embrião na cavidade uterina, reduzindo as chances de implantação e podendo favorecer seu deslocamento.

Essa alteração da contratilidade pode estar associada principalmente à endometriose, adenomiose e aos miomas, condições capazes de modificar a musculatura uterina e o padrão normal do peristaltismo.

A avaliação pode ser realizada por ultrassonografia transvaginal especializada ou por ressonância magnética com cine-mode display (cine-RM), técnicas que permitem avaliar dinamicamente as contrações uterinas, incluindo sua frequência, intensidade e direção.

Quando identificada uma contratilidade uterina excessiva ou inadequada, o tratamento deve ser individualizado, incluindo o controle da doença de base e, em casos selecionados, medicações específicas capazes de reduzir as contrações e favorecer o relaxamento uterino, buscando melhores condições para a implantação embrionária.

Microbiota Endometrial

Algumas bactérias presentes no sistema reprodutor são consideradas normais e constituem 9% da flora natural do corpo humano. Muitas delas nem sempre são facilmente identificáveis. A flora vaginal normal é definida pela presença de espécies de bactérias do gênero Lactobacillus, que são comumente associados a um estado saudável (micróbios “do bem”), por regular o sistema imunológico e proteger o organismo contra a entrada e proliferação de germes ruins que podem causar doenças.

O equilíbrio desta flora pode mudar ao longo do ciclo menstrual, dependendo de fatores como o uso de produtos íntimos, tipo de roupas íntimas e mudanças dos níveis hormonais durante o ciclo menstrual (estradiol e progesterona). Alterações da flora vaginal, como, por exemplo, a vaginose bacteriana, que é uma síndrome vaginal causada pelo crescimento excessivo de bactérias anaeróbias, como Atopobium vaginae, Gardnerella vaginalis, Mobiluncus curtisii e Mycoplasma hominis podem levar a comprometimento da saúde reprodutiva (micróbios “do mal”). O crescimento dessas bactérias está associado ao risco elevado de perdas gestacionais (abortos precoces e tardios), além de partos prematuros.

O endométrio, diferentemente da vagina, em condições normais, sempre foi considerado estéril. Entretanto, alguns estudos utilizando exames de cultura do fluido endometrial vêm demonstrando o crescimento de um ou mais microorganismos, com vários micróbios do “bem” e do “mal”. Um estudo microbiológico da cultura da ponta do cateter de transferência embrionária em pacientes submetidos à fertilização in vitro (FIV), revelou a presença de espécies bacterianas tanto Lactobacillus, quanto não-Lactobacillus (Enterobacter spp., Streptococcus spp., Staphylococcus spp., Escherichia coli e bactérias gram-negativas). Foi demonstrado ainda que a presença de bactérias na cavidade uterina afetava negativamente as taxas de implantação e gravidez.

Outro estudo avaliou amostras do fluido endometrial na fase secretora do ciclo menstrual (fase em que ocorre a implantação do embrião). O endométrio foi classificado como microbiota Lactobacillus (quando mais de 90% da flora é formada por Lactobacillus) ou microbiota não-Lactobacillus (quando mais de 10% da flora era formada por outras bactérias). Concluíram que a flora endometrial era estável ao longo do ciclo, mas quando havia um desequilíbrio da flora endometrial na fase secretora (com aumento de bactérias não-Lactobacillus) havia diminuição da taxa de implantação [de 60,7% para 23,1% (P=0,02)], taxa de gravidez [70,6% vs 33,3% (P=0,03)], de gravidez em curso [58,8% vs 13,3% (P=0,02)] e nascidos vivos [58,8% vs 6,7% (P= 0,002)].

Portanto, a flora bacteriana do endométrio é independente da regulação hormonal, mas a presença de bactérias não-Lactobacillus (micróbios “do mal”) neste local, está correlacionada ao impacto negativo nos resultados dos tratamentos de fertilização in vitro, na taxa de gestação espontânea, além de aumentar o risco de perda gestacional. A pesquisa e o tratamento dessas bactérias podem, assim, ser relevantes para o sucesso da gestação.

Endométrio fino

A implantação de embriões é um processo muito delicado, bem orquestrado e governado pela interação entre vários fatores maternos e embrionários, resultando em gravidez. O crescimento adequado do endométrio é um passo importante na receptividade endometrial, na implantação de embriões e nas consequentes taxas de sucesso dos tratamentos de fertilização. Um endométrio fino, com menos de 7 mm de espessura está ligado a uma menor probabilidade de gravidez, embora isto não exclua a possibilidade de gestação. Diversas modalidades de tratamento vêm sendo estudadas e incluem o uso de estrogênio prolongado, estimulação dos ovários com quantidade mínima de medicação, baixas doses de hCG, letrozol, pentoxifilina, Sildenafil, Tadalafil, PRP, GH, vitamina E, l-arginina, aspirina em baixas doses, acupuntura, G-CSF intrauterino e terapia com células-tronco. Todas estas modalidades de tratamento podem melhorar significativamente nas taxas de gravidez. Os primeiros resultados dos testes com terapia com células-tronco parecem promissores. Confira 8 dicas do Dr. Arnaldo para melhorar a espessura do endométrio.

Para melhorar a espessura do endométrio existem algumas alternativas:

Hormônio de crescimento

O hormônio GH (Growth Hormone – Hormônio do Crescimento) é sintetizado pela hipófise e, como o próprio significado sugere, age no organismo promovendo o crescimento e o desenvolvimento de todas as células do corpo humano. Devido a esta função, passou a ser sugerido em técnicas de reprodução assistida, não só em casos de pacientes com baixa reserva ovariana e más respondedoras, mas também em pacientes com endométrio fino, resistentes aos tratamentos habituais para aumentar a sua espessura.

Estudos mostram taxas de sucesso de significativamente melhores nas pacientes que adicionaram este hormônio ao tratamento de preparo endometrial convencional, quando há dificuldades em atingir a medida ideal.

Pentoxifilina e Vitamina E

A pentoxifilina é um derivado da metilxantina, usado no tratamento de doenças vasculares. E relatado que aumenta a dilatação dos vasos sanguíneos, inibe as reações inflamatórias e o Fator De Necrose Tumoral (TNF), que é uma citoquinina inflamatória, A combinação da pentoxifilina e da Vitamina E é uma opção que pode melhorar a espessura endometrial em pacientes com endométrio fino.

Dose baixa de aspirina

Acredita-se que a aspirina, em baixas doses, aumente o fluxo sanguíneo endometrial, melhorando a circulação pela artéria uterina e, consequentemente, melhora as taxas de gravidez.

Acupuntura

A acupuntura, uma das mais antigas intervenções da medicina tradicional chinesa, tem sido utilizada em várias condições obstétricas e ginecológicas, incluindo a infertilidade. Vários relatórios conseguiram mostrar que a acupuntura pode melhorar taxas de gravidez nos casos de endométrio fino.

Sildenafil (Viagra)

O citrato de sildenafil é um inibidor da fosfodiesterase-5, que aumenta os efeitos vasodilatadores do óxido nítrico, que por sua vez aumenta o fluxo sanguíneo no endométrio. Estudos realizados relataram que pacientes que tinham anteriormente um endométrio fino, entre 5-7 mm em um ciclo anterior de FIV ou IUI, e receberam 25 mg de sildenafil vaginal quatro vezes por dia durante 8–12 dias, tiveram aumento da espessura endometrial. O uso de Tadalafil (Cialis) pode ser uma opção interessante.

Fator estimulador de colônias granulócitos (G-CSF)

Essa medicação que tem o nome em inglês GRANULOCYTE COLONY-STIMULATING FACTOR), já é naturalmente produzida pelos glóbulos brancos do sangue (neutrófilos), mas quando aplicada, estimula as células tronco. É usado na oncologia, possui demonstrado efeitos positivos em mulheres com problemas inexplicáveis de infertilidade, e tem um papel direto na promoção do crescimento endometrial.

Alguns estudos demonstraram que a utilização do G-CSF aplicado diretamente na cavidade endometrial, antes da transferência dos embriões, conseguiu aumentar a espessura endometrial em apenas 48 horas após o uso da medicação e a consequente gravidez.

Plasma rico em plaquetas autólogo (PRP)

O Plasma rico em plaquetas autólogo (PRP) é uma opção de tratamento que pode melhorar os resultados das pacientes submetidas a tratamento de FIV que não conseguem um endométrio com espessura adequada (superior a 7mm), mesmo com os tratamentos hormonais. É produzido a partir do sangue da própria paciente, no qual será utilizado (sangue autólogo) para promover o crescimento do endométrio e melhorar o resultado da gravidez na fertilização in vitro (FIV). O método é notavelmente simples e fácil de executar. A amostra é processada em uma centrífuga para aumentar as plaquetas, separando vários componentes de sangue. As plaquetas são ricas em vários fatores de crescimento diferentes, que vão atrair outras células de reparação, (neutrófilos, monócitos e fibroblastos), também chamadas de células “trabalhadoras”, que permitem a proliferação tecidual. A infusão de PRP intrauterino representa um método para o endométrio fino com má resposta, uma vez que pode ser capaz de promover o crescimento endometrial e melhorar o resultado da gravidez em pacientes com endométrio fino. Leia mais sobre o PRP no site do IPGO

Terapia com células-tronco

Múltiplas evidências, algumas que datam do início dos anos 80, sustentam a presença de células progenitoras endometriais nas camadas basal e funcional do endométrio humano. Com uma tremenda capacidade regenerativa do revestimento endometrial durante cada ciclo estral, foi hipotetizado que estas células tronco/progenitoras desempenham um papel importante na regeneração endometrial. Apesar de sua descoberta há mais de 30 anos, a capacidade regenerativa de células-tronco endometriais foi comprovada recentemente, quando colaboradores demonstraram que células-tronco adultas endometriais são capazes de gerar endométrio humano após transplante em cápsulas renais de ratos. O papel das células-tronco na regeneração endometrial não está limitado às células progenitoras endometriais locais; de fato, as células estaminais derivadas da medula óssea hematopoiéticas e não hematopoiéticas (BMDSC) são recrutadas para o endométrio em resposta à lesão.

PROBLEMAS IMUNOLÓGICOS

Os problemas imunológicos têm sido responsabilizados por alguns casos de insucesso na fertilização in vitro e abortos de repetição. Alguns autores acreditam que muitos casos de falha são, na verdade, abortos muito precoces que, após um período curto de implantação embrionária, não chegam a ser detectados nos testes de gravidez, não evoluem e são eliminados. Existem controvérsias a respeito deste tema, mas os resultados positivos tem nos encorajado a prosseguir com tratamentos, que só devem ser indicados em situações especiais.

Perfil Th1 e Th2

As células T auxiliares (Th) são células do sistema imunológico que são ativadas quando o organismo necessita de uma reação a um determinado corpo estranho. Podem ser subdivididas em duas populações efetoras distintas, Th1 e Th2 e devem estar balanceadas. Th1 é pró-inflamatório, isto é, combatem agentes agressores ao corpo humano e as Th2 neutralizam a Th1. Células Th1 e Th2 desempenham papéis distintos em várias condições fisiológicas ou patológicas. É provável que, entre outros mecanismos, a resposta Th2 poderia proteger o embrião contra esta possível rejeição. O aumento da relação Th1 e Th2 já foi observado não apenas em casos de abortamentos de repetição, mas também de múltiplas falhas de implantação em ciclos de fertilização in vitro.

HLA-C/KIR (KIR= Killer Immunoglobulin-like Receptors e HLA-C = Human Leucocyte Antigen – Antígenos Leucocitários Humanos)

Este exame pode ajudar a melhorar as chances de um resultado positivo nos tratamentos de fertilização assistida ao definir que transferir para o útero UM ÚNICO embrião pode dar melhores resultados do que transferir DOIS OU MAIS. Isso se baseia no fato de que todas as mulheres têm, no seu útero, células imunológicas (chamadas NK) com receptores capazes de reconhecer o embrião quando esse chega ao útero materno. Estes receptores das células NK chamam-se KIR e se dividem em três grandes grupos genéticos (KIR AA, KIR AB e KIR BB). Eles têm função inibitória ou estimulatória sobre as células NK e importância fundamental na implantação dos embriões, na formação da placenta e, consequentemente, no próprio desenvolvimento da gestação. A ação dessas células, tão importantes para uma gestação normal, depende de uma perfeita interação imunológica entre uma molécula da superfície das células do embrião (chamada HLA-C) e os receptores KIR das células NK uterinas. Todo ser humano dispõe, em suas células, de antígenos (moléculas que interagem com o sistema imune) denominados HLA, que distinguem os antígenos do próprio organismo dos antígenos estranhos. Os antígenos HLA estão presentes em todas as células do corpo humano e coordenam a resposta imunológica do nosso organismo, não só nos transplantes, mas também em diversas doenças e reações a medicamentos, estimulando a formação de células de defesa, os leucócitos e anticorpos. O antígeno do embrião é o HLA-C. O HLA-C do embrião pode ser de dois tipos: C1 e C2. A molécula C1 interfere pouco na atividade da célula NK, então pouco afeta a gestação. Já a C2 tem uma ação muito maior sobre os receptores KIR, sendo, então, mais importante para a gestação. Assim, com base no resultado do exame KIR do pai e da mãe, podemos decidir e optar pela transferência de um único embrião.

Imunologia do endométrio e células NK

O endométrio possui um sistema imunológico próprio, fundamental para permitir a implantação e o desenvolvimento adequado do embrião. Entre suas principais células estão as Natural Killers (NK), identificadas principalmente pelo marcador CD56. Diferentemente do que ocorre no sangue, as NK uterinas exercem importante função reguladora, contribuindo para a formação da placenta e adaptação imunológica da gestação.

O problema pode surgir quando existe um desequilíbrio, tanto pelo excesso quanto pela quantidade insuficiente dessas células. Por isso, a avaliação das NK no sangue periférico não representa adequadamente o ambiente imunológico do útero.
Quando indicada, a investigação deve ser realizada diretamente no endométrio, por meio de biópsia na fase lútea, após a ovulação.

A interpretação não deve considerar apenas o CD56, pois esse marcador identifica diferentes populações de células NK. A associação com marcadores como CD16, CD163 e CD45 ajuda a distinguir células com maior potencial citotóxico das células imunomoduladoras. Além disso, a quantidade de NK varia naturalmente conforme os dias após a ovulação e a exposição à progesterona.

A avaliação conjunta desses marcadores permite caracterizar diferentes perfis imunológicos do endométrio. Eles podem ser classificados como normal, baixa ativação imune, padrão misto/citotóxico ou hiperativação imune. Cada perfil representa um comportamento imunológico diferente e, teoricamente, pode exigir estratégias específicas de tratamento.

Entretanto, ainda não existe consenso científico sobre valores universais de normalidade ou sobre o benefício de todas as terapias propostas. Por isso, alterações isoladas devem ser interpretadas com cautela, sempre dentro do contexto clínico da paciente.

A imunologia endometrial é uma área promissora da reprodução assistida, mas seu maior valor está na avaliação criteriosa, evitando tanto tratamentos desnecessários quanto a perda de oportunidades terapêuticas.

Doença de Hashimoto

A Doença de Hashimoto é uma das doenças autoimunes mais frequentes nas mulheres em idade reprodutiva e merece atenção especial na investigação da fertilidade. Nessa condição, o sistema imunológico passa a produzir anticorpos, principalmente anti-TPO e anti-Tg, contra estruturas da própria tireoide.

Com o tempo, essa agressão pode comprometer a produção dos hormônios tireoidianos, fundamentais para o equilíbrio do ciclo menstrual, da ovulação e da função ovariana. Além disso, a autoimunidade tireoidiana pode estar associada a outras doenças autoimunes, como doença celíaca, diabetes tipo 1, vitiligo, lúpus e artrite reumatoide. Por isso, Hashimoto deve ser entendida não apenas como uma doença da tireoide, mas como uma manifestação de um sistema imunológico desregulado.

Na reprodução, o ponto mais importante é diferenciar a presença dos anticorpos de uma verdadeira alteração da função tireoidiana. Estudos mostram associação entre autoimunidade tireoidiana e maior ocorrência de perdas gestacionais, embora isso não signifique que toda mulher com anticorpos positivos terá dificuldade para engravidar. Também existem estudos investigando sua relação com reserva ovariana reduzida, falência ovariana precoce e resultados da fertilização in vitro, mas essas associações ainda não devem ser interpretadas como causa direta em todas as pacientes.

Um avanço importante veio com as novas diretrizes da American Thyroid Association de 2026, que atualizaram as recomendações para o período pré-concepcional, gestação e pós-parto. (American Thyroid Association)
Hoje sabemos que simplesmente encontrar anti-TPO positivo em uma mulher com função tireoidiana normal não significa automaticamente que ela deva receber levotiroxina. Grandes estudos randomizados mostraram que tratar indiscriminadamente mulheres eutireoidianas com anticorpos positivos não melhora necessariamente as chances de nascimento.

A atenção deve ser maior quando há alteração do TSH, hipotireoidismo, histórico reprodutivo desfavorável ou outras doenças autoimunes associadas. Nas mulheres que desejam engravidar, portanto, a avaliação deve integrar TSH, T4 livre, anticorpos tireoidianos, história clínica e contexto reprodutivo. O objetivo não é simplesmente “baixar os anticorpos”, mas identificar e tratar aquilo que realmente possa comprometer a função tireoidiana, a fertilidade ou a evolução da gravidez.


Hashimoto é um exemplo importante de como fertilidade, endocrinologia e sistema imunológico estão interligados e precisam ser avaliados em conjunto, sem excessos, mas também sem negligenciar sinais relevantes.

TROMBOFILIAS

São doenças pouco frequentes e que provocam alterações de coagulação do sangue. Estas alterações não são detectadas em exames de sangue comuns, e quando existem, aumentam a chance de formar coágulos sanguíneos e causar tromboses mínimas capazes de impedir a implantação do embrião ou provocar abortos. Os exames para esta pesquisa são feitos por coleta de sangue em laboratórios especializados e sempre com indicação médica. São eles:

  • Anticorpos antifosfolípides
  • Anticorpo antifosfatidil – serina (IgG, IgM e IgA)
  • Fator V de Leiden
  • Antitrombina III
  • MTHFR (não é considerado por muitos como trombofilia, mas interfere na coagulação)
  • Protrombina mutação
  • Homocisteína
  • Proteína S
  • Proteína C
  • Beta 2 glicoproteína 1
  • Polimorfismo 4G/5G

A presença destas alterações no sangue das mulheres sugere causas imunológicas ou trombofilias. Os tratamentos variam de uma simples aspirina infantil, até medicamentos mais sofisticados como a heparina, corticoides e imunoglobulina injetável. É fundamental salientar que esta tecnologia não representa garantia no sucesso para a obtenção da gestação e sim uma nova alternativa para aqueles que até o momento não tiveram sucesso em tratamentos anteriores

Mais sobre as trombofilias

As Trombofilias têm importância não só na reprodução humana, mas também nas doenças cardiovasculares, uma vez que estão entre as principais causas de morte na população brasileira causando as duas mais importantes doenças deste setor: o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) e o Acidente Vascular e Encefálico (AVE).

A maioria dos quadros de IAM e AVE é proveniente de episódios de Tromboembolismo Venoso e/ou Arterial que são considerados doenças comuns, com incidência anual de um a três casos por 100 habitantes.

As alterações genéticas que levam ao Tromboembolismo Venoso e/ou arterial são denominadas trombofilias, definidas como uma condição hereditária ou adquirida, caracterizada por promover alterações na coagulação sanguínea, alterações estas que resultam em um maior risco para trombose e doenças relacionadas, como doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.

As mais comuns predisposições genéticas à trombose são caracterizadas por mutações em cinco genes diferentes:

  • Gene Fator V de Leiden: o Fator V de Leiden é um regulador central da Hemostasia. A mutação do gene G1691A provoca uma variante da molécula do Fator V. Essa variante conserva sua atividade pró-coagulante, por não sofrer bloqueio natural da proteína C, o que predispõe à formação de trombos. Essa mutação é a mais comum das alterações hereditárias relacionadas à trombose (De Stefano ET AL).
  • Gene da Protombina: a Protrombina é o precursor da protease trombina, enzima chave no processo de Hemostasia e Trombose. A mutação G20210A contribui para a elevação dos níveis plasmáticos de Protrombina e aumento nos níveis de Trombina, que pode facilitar a incidência de trombose venosa ou arterial (coronarianas ou cerebrais). Geralmente a mutação da Protrombina está associada a outros fatores de risco genético (Mutações no gene do Fator V de Leiden, mutações no gene da Metilenotetrahidro-folato redutase), ou adquiridos (Anticoagulante lúpico, gravidez puerpério, traumas, imobilizações, neoplasias e cirurgias) (Brown ET AL).
  • Gene da enzima Metilenotetrahidrofolato redutase (MTHFR): a MTHFR é uma enzima chave no metabolismo do Folato e da Homocisteína. As mutações C677T e A1298C contribuem para o aumento da Homocisteína plasmáticas. Tanto a Hiper-Homocisteínemia severa, quanto à moderada, levam a episódios trombóticos. Os pacientes podem permanecer assintomáticos até a terceira ou quarta década, quando apresentam episódios trombóticos. A Hiper-homocisteínemia plasmática está associada à aterosclerose prematura e trombose arterial. Neste exame são estudadas as mutações destes três genes acima descritos, além do polimorfismo C825T, no gene da subunidade B3 da Proteína G que está associado ao aumento da massa corporal, retenção de peso e hipertensão arterial na população em geral. Os resultados deste exame devem ser avaliados pelo médico responsável. Hoje em dia é pouco solicitado, entretanto quando a homocisteína está elevada passa a ter relevância.
  • Polimorfismo 4G/5G: esta alteração está também associada com o risco aumentado de doenças cardiovasculares, levando a uma chance de 20% de ter infarto do miocárdio. Em uma  publicação na revista científica internacional American Journal of Reproductive Immunology, uma meta-análise de 18 estudos publicados, demonstrou que este polimorfismo pode estar realmente associado a abortos e sua pesquisa deve fazer parte da investigação de aborto recorrente. Outro estudo sugere associação com complicações gestacionais tardias, como insuficiência placentária, que pode levar a restrição de crescimento e alterações na circulação fetal. Sugere-se ainda que poderia estar associada à falha de implantação, mas ainda não tem dados conclusivos nesta área.
    O inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1 (PAI-1) é um dos fatores que regula a coagulação do sangue. O polimorfismo 4G/5G é uma variação comum do gene do PAI-1 que está relacionado com a concentração plasmática do PAI-1. O alelo 4G leva a maiores concentrações de PAI-1, aumentando a coagulação; enquanto o alelo 5G resulta em menores níveis de PAI-1 circulantes. A presença do alelo 4G está associada ao risco aumentado de eventos tromboembolísticos e doenças cardiovasculares, com risco de 20% para o infarto do miocárdio.
    Além disso, altas concentrações de PAI-1 são encontradas em mulheres com aborto precoce de origem desconhecida e a presença do alelo 4G pode explicar estes casos, principalmente se no exame de sangue for detectado o alelo 4G em homozigose (2 alelos).
    Considerando que pelo menos 25% dos casos de aborto recorrente não se encontra uma causa que explique, a pesquisa do polimorfismo 4G/5G é mais um exame que pode auxiliar neste diagnóstico e permitir um tratamento para que um novo aborto seja evitado.

ENDOMETRIOSE

A associação entre endometriose e fertilidade tem sido alvo de discussão há muitos anos. Os debates em torno das proporções com que esta doença afeta a capacidade da mulher em ter filhos têm causado, por muitas vezes, um “vaivém” nas condutas e tratamentos médicos. É certo que todos os tipos e graus de endometriose podem influenciar a fertilidade, mas, ainda assim, o diagnóstico não é tão evidente e, entre outras causas de infertilidade, fica como última opção na pesquisa.

Em alguns casos, esta demora pode ser explicada pela inexistência de sintomas, ausência das queixas clínicas e falta de evidências laboratoriais conclusivos para o diagnóstico. Entretanto, exames de ressonância magnética, ultrassom com preparo intestinal podem diagnosticar precocemente esta doença, evitando atrasos nos resultados de tratamentos, ou seja, atrasando a concepção, e devem ser solicitados desde o início da pesquisa da fertilidade do casal.

A Endometriose pode atrapalhar o resultado de gravidez mesmo nos programas de fertilização in vitro e, por isso, após a falha destes tratamentos, esta possibilidade de diagnóstico deve ser avaliada, ainda que na ausência de sintomas. Em algumas situações, temos observado uma taxa maior de gravidez em pacientes com sintomologia inexpressiva que realizam a videolaparoscopia quando comparada com aquelas que não a fizeram e, por isso, acreditamos muito na importância desse diagnóstico.

A Endometriose causa infertilidade pelos seguintes efeitos:

  • Influencia os hormônios no processo de ovulação e na implantação do embrião;
  • Altera o hormônio prolactina e as prostaglandinas que agem negativamente na fertilidade;
  • Provoca alterações imunológicas: alterações celulares responsáveis pela imunologia do organismo (células NK, macrófagos, interleucinas, etc.);
  • Interfere na receptividade endometrial. O endométrio, tecido situado no interior da cavidade uterina e local onde o embrião se implanta, sofre a ação de substâncias produzidas pela Endometriose (ILH e LIF – Leukemia Innibitory Factor), que atrapalham a implantação do embrião;
  • Pode interferir no desenvolvimento embrionário e aumentar a taxa de abortamento.

ADENOMIOSE

Adenomiose é uma patologia uterina relacionada com a Endometriose, caracterizada pela presença de glândulas e estroma endometrial no miométrio (camada muscular do útero), podendo levar a hipertrofia das fibras musculares, com aumento do volume uterino.

A adenomiose pode ser focal ou difusa, e, quando difusa, pode tornar o útero mais volumoso e pesado. A doença é comumente encontrada em multíparas entre 35 e 50 anos, mas estudos recentes mostram sua associação com infertilidade, falhas de implantação e abortos recorrentes.

Clinicamente a adenomiose causa menorragia (aumento do fluxo menstrual), dismenorreia (cólicas) e dor pélvica crônica. Sua causa ainda é desconhecida.

A Ressonância Magnética da pelve é o exame padrão ouro para o diagnóstico, com 90 de taxa de especificidade e sensibilidade, mas uma ultrassonografia endovaginal com preparo intestinal boa resolução realizada por profissionais especializados nesta área, também pode ser utilizada para diagnóstico. Mulheres que apresentam a zona juncional entre o endométrio e miométrio acima de 8mm são diagnosticadas com a doença.

O mecanismo exato da associação de adenomiose e infertilidade ainda não está claro. Estudos mostram sua associação com as falhas de implantação e aumento no risco de abortos em mulheres submetidas a tratamento de fertilização in vitro. Estudos multicêntricos apontam para um mecanismo autoimune no processo, devido ao aumento de macrófagos (CD163) e células NK (CD 56) no endométrio de mulheres com adenomiose.

Pacientes com Adenomiose se beneficiam com “Ultra Down Regulation” por 2-6 meses, isto é, a mulher recebe os medicamentos agonistas de depósito (Lectrum, Lupron Depot ou Zoladex) antes do início do preparo do útero para a transferência dos embriões. O tempo de tratamento vai depender do grau de comprometimento do útero.

Atualmente, o IPGO recomenda o exame de ultrassom com preparo intestinal para que se avalie também a endometriose que, frequentemente, está associada à adenomiose. A partir desse exame, a adenomiose é considerada grave quando compromete mais do que 50% do miométrio.

INFLAMAÇÕES CRÔNICAS “SILENCIOSAS”

As Inflamações Crônicas Subclínicas, que aqui chamamos de “Inflamações Silenciosas” por serem imperceptíveis e não causarem sintomas, podem interferir na fertilidade, dificultando o sucesso da gravidez espontânea, e também nos tratamentos de fertilização (falhas de implantação).

A inflamação é um mecanismo de defesa natural do corpo. Faz parte do sistema imunológico e pode ser desencadeada por muitos fatores. É um processo complexo pelo qual os glóbulos brancos do corpo são liberados no sangue ou tecidos afetados para combater a infecção.  A inflamação é a maneira de o corpo marcar uma região para receber atenção do sistema imunológico.

Óvulos e espermatozoides saudáveis e hormônios equilibrados são necessários para uma gravidez bem-sucedida, mas igualmente importante é a condição e a receptividade do útero. Um óvulo fertilizado deve se fixar na parede do útero para implantação, mas a inflamação uterina crônica é uma causa conhecida de falha na implantação e perda gestacional precoce.

Essas inflamações são causadas por razões variadas: estresse físico, emocional e mental; dieta inadequada; toxinas ambientais; problemas simples de saúde, como alergias e obesidade; problemas ginecológicos, como ovários policísticos (SOMP), endometriose, falência ovariana ou simples processos naturais, como a própria ovulação ou mudança cíclica do ovário.

Exames específicos para identificação precoce da Inflamação Crônica Subclínica são as citocinas: Interleucina 10 (IL-10); Interleucina 6 (IL-6); Lipoproteína A; Óxido Nítrico; Fator de Necrose Tumoral (TNF alfa) e a Fosfolipase A2 (PLAC2).

O tratamento se baseia em uma dieta apropriada, que deverá ser indicada por um nutricionista ou nutrólogo, suplementos vitamínicos manipulados de forma individualizada que minimizem o processo inflamatório, além da redução do estresse e atividades físicas regulares.

Condições reprodutivas associadas à Inflamação Crônica incluem: Endometriose; Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP); Doença Inflamatória Pélvica; Miomas Uterinos e Cistos Ovarianos; Adenomiose e Síndrome de Asherman; Menopausa Precoce (insuficiência ovariana prematura); má qualidade de espermatozoides; má qualidade dos óvulos.

A importância da progesterona na transferência embrionária

A progesterona é um hormônio essencial para preparar o endométrio e ajudar a manter o início da gestação. No preparo para a transferência embrionária, seus níveis precisam ser acompanhados em momentos importantes. Antes de começar a progesterona, espera-se que o nível no sangue esteja baixo, geralmente abaixo de 1 ng/mL. Essa medida ajuda a verificar se o organismo não começou a produzir progesterona antes da hora planejada. No dia em que seu uso será iniciado, a dosagem também deve ser feita antes da primeira dose, esperando-se que o valor continue abaixo de 1 ng/mL, de acordo com o protocolo utilizado. Depois que a progesterona é iniciada, começa a contagem do tempo necessário para preparar o endométrio, que deve estar de acordo com o estágio de desenvolvimento do embrião que será transferido.

Durante o preparo, a equipe pode solicitar exames para avaliar se os níveis estão adequados para cada paciente. No dia da transferência, níveis em torno de 9,5 a 10 ng/mL ou acima disso são usados como referência em alguns protocolos. Alguns estudos relacionam níveis baixos perto da transferência a resultados menos favoráveis. No entanto, os estudos não são todos iguais, e ainda não existe um valor ideal único que sirva para todas as pacientes. Depois da transferência, a progesterona continua sendo importante para dar suporte ao endométrio e ao início da gravidez. Em alguns protocolos, busca-se manter os níveis acima de 15 ng/mL nessa fase. Esse valor pode ser adotado como meta de acompanhamento, mas não é um limite universal estabelecido para todas as situações.

A interpretação do exame depende do tipo de preparo, da dose utilizada e da via de administração, além do horário da última dose e do momento em que o sangue foi coletado. Por isso, os resultados devem ser avaliados pelo profissional responsável, considerando o tratamento como um todo. Se os níveis estiverem abaixo ou acima da meta definida, a equipe poderá avaliar se é necessário fazer algum ajuste. Esses cuidados devem ser seguidos com critério, e os ajustes podem ser feitos para mais ou para menos, conforme a necessidade de cada paciente.

A progesterona pode ser administrada por diferentes vias: vaginal, oral, sublingual, subcutânea ou intramuscular. A via escolhida no início do tratamento ou em eventuais ajustes dependerá da avaliação e da indicação de cada profissional. O objetivo é oferecer o suporte hormonal adequado e, sempre que necessário, ajustar o tratamento de forma individualizada.

CONCLUSÃO E NOVAS PERSPECTIVAS

A avaliação das falhas nos tratamentos por fertilização in vitro é muito complexa e deve ser individualizada para cada casal. Muitos pacientes, ao terem um novo diagnóstico que talvez justifique o insucesso dos seus tratamentos, perguntam a si mesmos e a seus médicos porque esta iniciativa não foi tomada antes que ocorressem fracassos sucessivos. É importante enfatizar que vários destes exames são alvo de controvérsias e discussões no mundo inteiro, que a cada ano surgem como algo inovador, mas nem sempre as vantagens referidas se confirmam.

Muitos questionam o real valor de alguns destes diagnósticos e técnicas e, se eles realmente justificariam o fato de a gravidez não ter ocorrido.

Por isso, não é todo profissional que concorda em solicitá-los e, quando o fazem, deixam como uma opção mais remota. Cada médico tem a sua experiência profissional e obedece rigorosamente ao conceito da “medicina baseada em evidências” e, por isto, não valoriza estes tratamentos. Entretanto, muitos deles “ainda não têm evidências”, mas poderão tê-las no futuro, têm proporcionado, no presente, resultados positivos de gravidez.

Estamos atentos a todas as novidades que venham ajudar os casais a construírem a sua família.

 “A nossa missão é fazer o que há de melhor para aqueles que desejam ter filhos e não o conseguem naturalmente”.

Dr. Arnaldo Schizzi Cambiaghi

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